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A Hora de Parar

A Hora de Parar
*por Tom Coelho
Ambição é uma coisa boa. Ela nos desperta desejos, promove o
comprometimento, estimula a perseverança. Torna-nos mais fortes e nos
faz buscar a superação. Pela ambição conquistamos mais posses e mais
poder. Sentimo-nos mais ricos, mais bonitos e até mais livres. O que a
estraga é a ganância.
Como tudo na vida que desgarra da ponderação do equilíbrio, a ambição
desmedida evolui feito um pokémon para a ganância. Neste estágio, o
desejo vira cupidez; o comprometimento, obsessão; a perseverança,
teimosia. As posses denotam opulência e, o poder, prepotência. A
liberdade se esvai e renasce como fênix, enjaulada.
O problema é uma questão de medida. Na escalada para o progresso, não
sabemos - ou não aceitamos - a hora de parar.
Tome como exemplo o mundo corporativo. Uma empresa lança um
produto ou serviço que é bem aceito pelo mercado. Realiza um lucro
considerável e resolve reinvesti-lo. E, ao prosseguir sucessivamente neste
processo, eleva ainda mais seu volume de vendas e faturamento. Mas
também seus custos. A cada nova rodada mais matéria-prima e mais mãode-
obra são necessárias. Os investimentos em marketing e infraestrutura,
entre outros, são igualmente crescentes.
O que muitas vezes não se observa é que há um determinado momento em
que o processo deve ser interrompido sob pena de se ingressar no que a
teoria econômica chama de "deseconomia de escala". A matemática tem
uma imagem singular para ilustrar isso: o ponto de inflexão. Num gráfico
cartesiano, é o momento em que a curva muda sua concavidade, ou seja,
se a linha era crescente, passa a ser decrescente.
Em suma, isto significa que mais faturamento não representará
indefinidamente mais lucro. Ou seja, trabalha-se mais para ganhar-se
menos! E tudo porque a ambição, antes saudável e responsável pela
prosperidade do negócio, visita o reino da ganância e não aceita
simplesmente o momento de parar quando o ótimo foi atingido.
Na vida pessoal não é diferente. Defendo a tese de que relacionamentos
amorosos, por exemplo, têm prazo de validade. E me alinho aos votos
sagrados de "até que a morte os separe" juramentados na celebração dos
casamentos. O ponto é: de qual morte estamos falando? As pessoas
imaginam tratar-se da morte física. Prefiro interpretar como a morte do
sentimento.
Todo início de relacionamento é mágico. É quando se pratica o jogo da
conquista e da sedução. Nossas ações são orquestradas e as palavras
escolhidas meticulosamente. Mostramos o que temos de melhor: nossa
vida é virtuosa, nossos valores são nobres e nossos feitos são admiráveis.
Vestimos as melhores roupas, usamos os mais agradáveis perfumes. A
pele tem viço; o olho, brilho; o sorriso, autenticidade.
Os ambientes por onde circulamos são aconchegantes. A bebida parece
sempre gelada, mesmo que seja um conhaque, e a comida sempre
saborosa, mesmo que não seja consumida.
Tudo isso acontece porque estamos envoltos numa atmosfera de
encantamento e sinergia, embevecidos pela eficiência do diálogo, que
corre fácil posto que há muito por se falar, anos para se compartilhar.
Queremos em um par de horas nos desnudar, não apenas das roupas, mas
de nossa história pessoal, mostrando quem somos, de onde viemos e para
onde queremos ir - e o destino reserva lugar ao seu interlocutor, a figura
amada, quase inanimada, que lhe sorri.
O processo é o mesmo para homens e mulheres. Diferem as estratégias,
as táticas, mas não os propósitos.
Transcorrida esta etapa consuma-se a conquista. Bocas que se encontram,
braços que se enlaçam, corpos que se aquecem. E então, vive-se o
romance que nutre e cega. O horizonte se retrai.
A estabilidade leva a relação a mares calmos e a ausência de ondas revela
o que antes não se podia enxergar. Descobrimos - e revelamos - que
virtudes carregam consigo defeitos, que amabilidade é temperada com
eventual intolerância e que gentilezas são bonificadas com fleuma.
É neste momento que se estabelecem os limites entre paixão e amor. É
quando a união amadurece. É quando percebemos que o beijo ardente e o
sexo prazeroso são imprescindíveis, mas não únicos. O diálogo ganha
novos temas, mas não se perde. E notamos, como bem pontuou Gabriel
Garcia Márquez, que amamos quem está conosco não por quem a pessoa
é, mas por quem nos tornamos na presença dela.
Agora, trata-se de manutenção. De conquistar um pouco mais a cada dia.
Ou tudo novamente.
Mas a natureza nos reservou um mundo dual. Dia e noite, quente e frio, yin
e yang. E, não raro, os relacionamentos não apenas se desgastam, mas se
esgotam. Não há mais calor no beijo, os olhares se desviam, os diálogos
são fúteis. Primeiro, a discórdia. Depois, o conflito. Por fim, o confronto.
Transformamos nossas cabeças num cemitério de lembranças e passamos
a cultivar toda ordem de sentimentos negativos. O pacote vem completo,
com mágoas, ressentimentos, infidelidade, desamor e tristeza.
Esperamos resolutamente que um extremo seja alcançado para tomar a
decisão da separação que poderia ter florescido quando ainda havia
respeito e admiração mútuos.
Não sabemos terminar.
* TomCoelho, com formação em Economia pela FEA/USP,Publicidade pela ESPM/SP,
especialização em Marketingpela MMS/SP e em Qualidade de Vida no Trabalho pela
FIA-FEA/USP,é empresário, consultor, professor universitário,escritor e palestrante.
Diretor da Infinity Consulting e DiretorEstadual do NJE/Ciesp. Contatos através do email
tomcoelho@tomcoelho.com.br.Visite: www.tomcoelho.com.br.
 

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