Um bate papo com Silvia Jacoby
* Por Graziele Zwielewski
Pensando na possibilidade de auxiliar meus leitores que pensam, organizam e criam planos de expatriação; e também profissionais que precisam de indicadores para avaliação de proposta de expatriação; resolvi dividir com vocês, parte de uma entrevista riquíssima com Silvia Jacoby, atual responsável pelo departamento de Expatriados da BOSCH. A entrevista na íntegra vocês poderão acessar em breve no:
www.businessandculture.com.br
1 Silvia, há quantos anos trabalha com internacionalização de pessoas? Pode nos contar um pouco sobre sua trajetória profissional?
RESP: Minha experiência com expatriados teve início quando eu mesma fui expatriada pela Bosch, para a matriz na Alemanha, em 1994. Permaneci lá por quase três anos, período em que fui responsável por um projeto de formação e desenvolvimento de futuros líderes, que consistia no envio de 150 colaboradores alemães recém-formados para unidades da Bosch nos cinco continentes.
Após esta experiência retornei ao Brasil, em 1997, época em que nosso país abria seus mercados e tinha início o processo de globalização das empresas. Também na Bosch, foi nessa época que os processos de transferência internacional começaram a se tornar mais numerosos e, por esta razão, foi criado um departamento para suprir esta demanda, pelo qual assumi a responsabilidade. Desde então, temos registrado um crescente aumento do volume e da complexidade dos projetos. Atualmente, somos responsáveis por cerca de 180 expatriados - já transferidos ou em fase de preparação - da América do Sul (principalmente Brasil) para o mundo e vice-versa.
2 Quanto a expatriação pode ser útil como estratégia para alcançar vantagens competitivas? Teria algum caso para nos citar?
RESP: A expatriação faz parte da estratégia de negócios da empresa. No mundo globalizado, a experiência internacional deixou de ser algo raro para se tornar parte do dia a dia das organizações. Contatos por e-mail, telefone, ou mesmo viagens de negócios, podem ser insuficientes para compreender com maior profundidade como lidar com outras culturas. Quem trabalha em outro país aprende muito, mas, certamente, também ensina; leva aos outros seu conhecimento, crenças, valores e a cultura do seu país e, no retorno, traz consigo e dissemina o que aprendeu lá fora. Esta troca é extremamente enriquecedora para todos. Por outro lado, a escolha do profissional correto para a expatriação é de suma importância, uma vez que a empresa realiza um alto investimento no processo. Pode-se considerar que o custo de uma transferência internacional equivale a pelo menos 3 vezes o custo de um colaborador local. Por isto, são necessários todos os cuidados para que a experiência seja bem sucedida, trazendo benefícios tanto para o funcionário como para a empresa.
3 No atual cenário onde o Brasil tem sido alvo de olhares, elogios e investimentos (uns até dizem que estamos na moda, “brasilmania”); os profissionais estão preferindo a carreira nacional à internacional? Você acredita que para o crescimento profissional, vale a pena ser expatriado mesmo diante deste cenário crescente de oportunidades nacionais?
RESP: Uma experiência internacional pode abrir horizontes futuros muito mais amplos. As empresas precisam desenhar políticas de expatriação que sejam atrativas não apenas do ponto de vista do “pacote de benefícios”, mas, em especial, no que diz respeito ao plano de carreira. Sem isto, é possível que o profissional prefira ficar no Brasil a se aventurar numa experiência no exterior. É preciso cuidar, por exemplo, para que o colaborador brasileiro no exterior não fique “esquecido” até o dia do seu retorno. Para evitar isto, é fundamental que exista, antes da expatriação, um plano bem concreto dos objetivos da transferência internacional, das responsabilidades, da duração e da posição que o colaborador ocupará por ocasião do seu retorno. O colaborador, por sua vez, deve ter conhecimento destes planos e estar de acordo com os mesmos.
4 Quais as ferramentas a Bosch está utilizando para atrair seus funcionários para vagas internacionais, já que financeiramente, devido ao valor do real perante moedas externas, não tem sido uma boa opção de ganhos financeiros?
RESP: A Bosch tem uma política de expatriação muito bem estruturada e que prevê um pacote de benefícios atrativo para o colaborador. Além disso, há total atenção com o planejamento e acompanhamento da transferência, de modo que o colaborador perceba as vantagens que a experiência internacional pode lhe trazer.
5 Que competências os profissionais que são expatriados precisam ter?
RESP: Entre as competências pessoais, creio que as mais importantes são a abertura para o novo, flexibilidade, capacidade de adaptação, senso de humor (para, por exemplo, conseguir rir de si mesmo em situações de adaptação...), otimismo e pragmatismo.
Quanto às competências técnicas, além do conhecimento na área de atuação, é fundamental ter fluência no idioma do país de destino (a empresa deve apoiar o colaborador no aprendizado deste idioma). Para um expatriado que está na Alemanha, por exemplo, não basta ter o inglês fluente, apesar da maioria compreender este idioma. Sem um bom domínio do alemão, a integração ficará fortemente comprometida. O colaborador terá pouca participação em reuniões, dificuldade em leituras e escrita e mesmo na compreensão de orientações. Terá ainda mais dificuldade para negociar com clientes, comandar um grupo de colaboradores, fazer apresentações a um determinado público, enfim, sua atuação profissional ficará comprometida. Além disso, o não domínio do idioma local criará barreiras para a integração social e atividades de lazer.
6 Quais as expectativas desses profissionais que aceitam e optam pela expatriação como um estágio em suas carreiras?
RESP: Com certeza, a expectativa é de crescimento. Mas não necessariamente de cargo e salário em curto prazo, e sim de investimento na própria carreira e na própria vida, também na de seus familiares. Aliás, a família exerce um papel muito importante para que a expatriação seja bem sucedida. Se a família também não estiver fortemente motivada com a transferência, pode se tornar fator de risco para o sucesso.
7 Que dicas daria para os profissionais que estão buscando oportunidades de iniciar Carreira Internacional?
RESP: Fluência no idioma do país de destino é fundamental. Além disso, é importante que o colaborador deixe claro para seu gestor e/ou área de RH o seu desejo de ter experiência internacional. Deve também aproveitar as oportunidades que seu trabalho lhe dá para se tornar presente junto aos seus contatos do exterior, por exemplo, através de emails, telefonemas e, se tiver oportunidade, recebendo visitas do exterior e realizando viagens de negócios. Deve igualmente ficar atento às oportunidades que surgem no dia a dia, sendo também transparente e mantendo seu gestor informado caso tome alguma ação mais concreta como, por exemplo, se candidatar a uma vaga internacional em sua empresa.





















