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Vocação

Jerônimo Mendes*


No mundo globalizado e competitivo todos sabem o que é vocação, seja pelo instinto ou pela informação. O problema é entender e aceitar a vocação como a salvação ou a decadência do ser humano.

Mais difícil ainda é entender as razões que distanciam as pessoas da sua vocação natural, ao aceitarem o fato de que uma vida confortável, do ponto de vista financeiro, e status, são suficientes para amenizar a insatisfação temporária, enquanto não encontram meios de canalizar energia e inteligência para fazer o que gostam.

Há um bocado de gente que se diz feliz fazendo coisas muito distantes da sua real natureza. Pessoas que sorriem durante o dia e choram durante a noite ao lembrar do dia seguinte quando devem voltar a fazer algo detestável e sem sentido, pessoas cuja segunda-feira é um martírio e sexta-feira um festival.

Durante uma vida inteira o ser humano insiste em carregar o fardo da indiferença e da falta de reconhecimento em troca de alguns míseros trocados. Muitos o fazem em troca de milhões de reais, mesmo infelizes, pois a ambição é uma virtude que corrói a inteligência e o bom senso se não aplicada na medida certa.

Afirmar que a vocação do homem é ganhar dinheiro para sobreviver e desfrutar de uma aposentadoria tranqüila seria muita pobreza de espírito. A Revolução Industrial e a modernidade pregada no século passado apagaram parcialmente o senso de vocação no mundo corporativo. A lei da sobrevivência continua fazendo vítimas, destruindo sonhos e talentos, em razão da sua natural seletividade.

Até a metade do Século XIX, quase todas as pessoas tinham profissão definida, por herança ou afinidade. Embora o termo não fosse utilizado na época, eram verdadeiros empreendedores, profissão que vai ganhar intensidade neste século com a redução considerável dos empregos no mercado de trabalho formal.

A industrialização do ser humano, o respectivo confinamento da força de trabalho em local determinado, por tempo determinado e a falsa sensação do emprego seguro, fez ressurgir o mito da tecnologia e modernidade 1 e sugou do trabalhador o pouco que lhe restava de senso crítico e naturalidade.

Hoje, mais do que nunca, nossos filhos são tentados a optar pela profissão de maior prestígio, dinheiro, poder e sucesso, por conta da nossa incompetência em afastá-los da mídia e mostrar a eles que, apesar da competição levada ao extremo, é possível ser feliz com menos.

Muitos pais insistem no mesmo erro dos antepassados empurrando os filhos para profissões onde eles não têm a menor chance de dar certo, ou seja, para a qual eles não têm a mínima vocação. Quanta falta de respeito pelos filhos!

Olhe ao redor e veja quantos médicos incompetentes, infelizes, cujos pais, também médicos, imaginaram que o melhor para os filhos seria seguir a mesma profissão, como se vocação e aptidão fossem transferidas geneticamente.

Felizmente, o trabalho é uma necessidade biológica. A questão não é se devemos trabalhar ou não, mas qual trabalho melhor se aproxima da nossa vocação. O melhor da vida seria acordar todas as manhãs para fazer o que se gosta, mas poucas pessoas gozam desse privilégio.

O desgaste na relação profissional inicia quando as pessoas não se imaginam com o direito de encontrar prazer e significado no trabalho. Em razão disso, é muito provável que estejam na profissão errada, sufocadas pela pressão constante do ambiente corporativo.

A permanência não é uma escolha, mas uma necessidade idêntica à do prisioneiro que faz da cela um ambiente melhor do que as ruas onde foi discriminado e passou fome.

Mais do que um direito, a vocação é um dever. Talvez por esse motivo seja tão difícil encontrá-la e mais cômodo contentar-se com o primeiro emprego onde possamos gozar das benesses criadas pelo esforço alheio, oferecidas em troca do nosso precioso tempo e inteligência.

Quando abraçamos uma profissão, mesmo não escolhida por vontade própria, vemos um sentido de realização, seja como médico, engenheiro, escritor ou algo que o valha, sem necessidade do reconhecimento propriamente dito, sinal de que estamos no caminho certo e a competição será menor empecilho para o sucesso.

Esse é o verdadeiro sentido da vocação: gostar do que faz. A maioria das pessoas continua fazendo o que não gosta imaginando um dia fazer o que gostam. Não está totalmente errado, mas a tendência natural é a acomodação e uma razoável aposentadoria, se tudo correr bem até lá.

Ter trabalho para encontrar trabalho, não desejo isso a ninguém. A segurança não está no trabalho formal, mas no reconhecimento da nossa capacidade de realizar o impossível, a qualquer tempo, por conta de uma vocação.

Você pode comandar uma grande empresa, ser o centro do mundo e mesmo assim estar completamente isolado, vazio em si mesmo. Você pode passar a vida inteira fazendo o que não quer, a exemplo de Babbitt no romance de Sinclair Lewis, e pagar um preço alto por ignorar sua vocação ao seguir uma profissão sem significado algum.

Como disse há pouco é mais difícil encontrar a vocação do que segui-la. Ter uma boa conta bancária é mais cômodo e aparentemente seguro. Seguir a vocação pode soar modéstia e falta de ambição, imperdoável nos dias de hoje.

Se não encontramos a vocação, é nosso dever perseguir a felicidade nas pequenas coisas, lutando contra o tempo que vai calando nossa voz interior e dizimando todas as esperanças de fazer do mundo um ambiente melhor.

Ceder com freqüência aos nossos desejos é uma armadilha, cuja vítima somos nós mesmos. Não é possível que, de cem metros possíveis, não consigamos avançar pelo menos alguns centímetros. Ter vocação é juntar cabeça e coração.

(1) O Feitiço das Organizações. Schirato, Maria Aparecida Rhein

*Administrador, Escritor, Palestrante e Professor Universitário. Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições e Reflexões.

 

Maurício de Paula

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