Laila Vanete
Isto é o que se pode chamar de perguntinha perigosa, mesmo porque pode
vir acompanhada de uma considerável dose de sarcasmo. Sabe aquela
situação: - Chefe, preciso de um pequeno aumento para dar uma
reforçada nas minhas finanças.
- Quer ganhar mais é? Entendi direito?
E é nessa hora que o dilema se coloca: "continuar com o assunto ou dizer
para o chefe que a panela de feijão foi esquecida sobre o fogo"? Pois é. O
frio na barriga é inevitável. Muita gente chega a colocar a mão no peito,
como quem está tendo um enfarte:
- Ai, é agora!
Se o chefe diz que precisa pensar no assunto, então, o terror é aumentado
um milhão de vezes. O funcionário não dorme direito, não come direito,
não trabalha direito. Enfim, chega o grande momento. Rápido! O chefe
está chamando.
- Olha, Almeida, não que eu não queira te dar esse aumento. O problema é
que nossa filial na Nova Zelândia está com um volume de pedidos muito
baixo. E você sabe que nesses tempos de globalização, uma coisa acaba
puxando a outra. Resultado: a crise de lá, nos afeta aqui, gerando mais
custos do que lucrabilidade. Trocando em miúdos, dar um aumento para
você agora, seria uma atitude precipitada, pra não falar temerosa.
Almeida sai da sala do chefe derrotado. No íntimo, crê que sua demissão é
meramente uma questão de dias. Essa pequena história ilustra uma
realidade bastante comum no ambiente empresarial. Na hora de solicitar
um reajuste, o funcionário já chega, como diria Nelson Rodrigues, com
cara de coitado, de cabeça baixa e munido de argumentos como a gravidez
da esposa, o filho doente, o orçamento comprometido... Argumentos
válidos e justificáveis, sem a menor sombra de dúvida. Todavia, não
bastam. Para um dos maiores especialistas na matéria, o administrador e
consultor de empresas norte-americano Stephen Covey, o importante é
gerar um diferencial, o famoso "algo mais":
"Não peça, (...) porque as chances de sucesso para quem entra na sala do
chefe implorando aumento são remotas demais para valer o risco. Sugiro
uma tática que se demonstra muito mais eficiente. Primeiro, aconselho
que, ao contrário de esperar por tarefas, o funcionário vá atrás delas,
chamando para si cada vez mais responsabilidade. A proatividade é um
dos meus mais estimados princípios. Em segundo lugar, recomendo que o
chefiado tente saber tudo sobre o ambiente em que está inserido, a
situação da empresa, as questões que mais angustiam o chefe". (Stephen
Covey em entrevista publicada na edição de 26 de março de 2005 da
revista Veja).
Em suma, o funcionário deve estar atento a essas possibilidades. Só assim
ele terá condições de negociar e melhorar sua situação no tocante à
salário. Pode até parecer clichê, mas organização e apresentação de
resultados não são simples palavras. Experimente mostrar ao chefe uma
planilha de custos de material e suas iniciativas e ações para cortar esses
custos. Ou uma diminuição do tempo gasto em determinada operação,
sem que ocorram quedas na qualidade do produto final. Os frutos podem
até demorar para serem colhidos. Entretanto, sua reputação dentro da
empresa tenderá a ser cada vez melhor.
"Resumo da ópera: não se apresente como um motivo de dor de cabeça,
mas como uma pessoa que está lá para trazer soluções. Aí, sim,
conseguirá o aumento. Ele vem como uma conseqüência natural".
(Stephen Covey, para Veja).
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