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A Dor da Despedida

 

Tom Coelho

A cada duas semanas o ritual se repete. Quando a sexta-feira se aproxima, minha rotina muda. Procuro arrumar a casa com mais cuidado, vou ao supermercado para pequenas compras supérfluas, consulto guias de programação infantil. Expectativa, alegria e até taquicardia. É dia de apanhar meus filhos para passarem o final de semana comigo.

A companhia das crianças é renovadora. Nada é comparável a ouvir o som macio de suas vozes pueris, a compartilhar seus sorrisos e ga! rgalhadas espontâneas, a contemplá-los na tranqüilidade do adormecer.

Os sábados são especiais. Despertamos juntos após uma noite de descanso em que três dividem um mesmo colchão – situação que não perdurará, pois as pernas deles crescem depressa... As refeições são feitas tardiamente. Jogamos de futebol a videogame. Eles discutem. E, em segundos, reconciliam-se. Dão trabalho para comer. Mas comem. Invariavelmente avançamos pela madrugada adentro. É um dia sem igual porque parece que não tem fim.

Porém, a chegada do domingo prenuncia o fim desta felicidade. As horas passam rápido. Quando percebemos, resta-nos tempo apenas para o banho, arrumar as malas e pegar a estrada. Eles partem deixando saudades e lembranças por todos os lados: brinquedos, peças d! e roupas e a presença no ar. A cama fica grande; o coração, pequeno.

Lembro-me da experiência vivida em despedidas de amor. Então adolescente, residindo em municípios diferentes, alternava com a namorada as viagens nos finais de semana. Aguardá-la na estação rodoviária era motivo de satisfação. Esta passagem lembra-me Saint-Exupéry e seu “Pequeno Príncipe”:

“Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ! ritos.”

Na vida profissional passamos também por vivências diversas. Você muda de cargo, depois de departamento e, finalmente, de unidade. Ou então abre uma empresa, participa de outra, encerra uma atividade. A cada um destes processos, uma nova fase que se inicia ante o término de outra. Ambientes que vêm e que vão. Pessoas que vão e que ficam.

Há partidas, separações e despedidas. Em algumas situações dizemos “até logo”, em outras um resoluto “tchau”. Mas apenas o “adeus” carrega consigo um bálsamo de dor. Porque é o único temperado com o aroma, doce ou amargo, do tempo.

A vida me tornou positivo e otimista. Aprendo por tentativa e acerto, e não por tentativa e erro. Vejo o copo meio cheio, e não meio vazio. ! Toda adversidade traz consigo lições e oportunidades. Mas ainda não aprendi a lidar adequadamente com a dor de certos tipos de separação, como o adeus de uma despedida quando a vontade é ficar. Leonardo da Vinci dizia: “Onde há muito sentimento, há muita dor”.

De todas as partidas, idas e vindas, encontros e desencontros, permeados pela razão ou pela emoção, pelo jogo do certo ou do errado, as maiores dores advêm dos momentos em que me distancio de mim mesmo, questionando meus propósitos, a trajetória em curso e os caminhos a trilhar. Mas os maiores prazeres também decorrem desta redescoberta, quase sempre simples, sutil e inesperada.

 

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