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Inteligência Emocional

"Estamos a duas horas sem faniquitos"

* por Raul Candeloro

Na frente do prédio onde eu moro tem um outro prédio em construção. Um cartaz bem grande mostra o cronograma da obra e a porcentagem de avanço. Um outro cartaz menor fala da segurança: “estamos há ‘x’ dias sem acidentes de trabalho”.

Essa placa me deu uma idéia que eu acho que poderia ser implantada em muitas empresas: “Estamos há ‘x’ dias sem faniquitos”. Isso mesmo – sem faniquitos. Porque a impressão que me dá é que tem muita gente que até tem conhecimentos e habilidades técnicas razoáveis, mas são um desastre do ponto de vista de inteligência emocional.

A definição de inteligência emocional é a habilidade de reconhecer seus próprios comportamentos, impulsos e mudanças de humor, reconhecer isso nos outros também e administrá-los de acordo com a situação.

 

Falta empatia no mundo empresarial, aponta pesquisa

Minoru Ueda*
Uma semana após a criação da Brasil Food, resultado de fusão da Sadia com a Perdigão, dois funcionários, um de cada empresa, brigaram em um supermercado de Jundiaí porque um deles afirmou a marca que representava deveria ter mais espaço nas gôndolas. Essa cena é um exemplo clássico de falta de competência emocional, fundamentalmente empatia, é o que constata o especialista e consultor em Competência Emocional e Qualidade de Vida no Trabalho Minoru Ueda, que também é professor da Fundação Instituto de Administração (FIA), conveniada da Faculdade de Economia, Administração de Ciências Contábeis da USP (FEA-USP).
 
De acordo com o pesquisador, há cinco competências emocionais que são necessárias para que se tenha um bom relacionamento interpessoal no meio empresarial: empatia, auto-conhecimento, auto-controle, auto-motivação e habilidades sociais. Uma empresa cujos empregados dominam as cinco competências tem, segundo a pesquisa de Ueda, uma significativa melhoria no rendimento. Segundo Ana Christina Limongi-França, psicóloga organizacional e professora associada da FEA-USP, empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro. Para Ueda, é “tornar-se sensível aos aspectos sociais, e ter consciência da situação, antes de tentar ser entendido”.
 
A pesquisa do professor, que é inédita e foi feita principalmente com secretárias que atuam em empresas privadas e públicas, detectou que auto-conhecimento e auto controle têm um bom índice de ocorrência (25% e 24% respectivamente). Empatia, porém, não é tão frequente (apenas 14%). O professor explica que, apesar da baixa incidência, é importante que os empregados a tenham, principalmente porque as empresas vêm sofrendo grandes mudanças que afetam também seus trabalhadores. “Em grandes fusões, por exemplo, uma pessoa tem que se lembrar que agora convive em um ambienta cultural distinto, com regras, valores e procedimentos diferentes. Se pensar que o outro também está se adaptando, a convivência fica mais fácil”.
 
O mercado competitivo exige hoje uma estrutura organizacional que incentive o trabalho em equipe. Por isso, a competência baseada na empatia é extremamente valorizada no ambiente corporativo. “Para a produtividade, o importante é que [a empatia] torna a empresa e o processo produtivo mais humanos”, afirmou Limongi-França.
 
A descoberta de que a empatia é uma habilidade interpessoal tão pouco trabalhada no mundo empresarial serve como um alerta às empresas. Ueda, porém, afirma que novos estudos precisam ser feitos, devido às mudanças envolvendo o ambiente empresarial e o que elas exigem dos profissionais.

 

Quem tem medo de ser gente?

Floriano Serra*


Ninguém  é tolo de supor que uma empresa sobrevive apenas à custa de festas, carinhos e sorrisos. No entanto, alguns profissionais, seja por má vontade em compreender o assunto, ou seja, porque não compreendem mesmo, têm uma imediata reação aversiva e quase enojada quando alguém lhes fala de temas como qualidade de vida, programas de integração, afetividade e espiritualidade no trabalho. Tudo leva a crer que tais profissionais possuem uma visão antiquada e totalmente ultrapassada quanto à atual e verdadeira natureza das relações entre capital e trabalho.

É óbvio que toda empresa precisa do lucro. Em que pese não ser este a razão fundamental da sua existência (ou pelo menos não deveria ser), o lucro lhe dá respaldo e sustentabilidade econômico-financeira para continuar existindo, produzindo e crescendo.

Justamente por essa razão, os profissionais que gerenciam equipes, deveriam ter sempre em mente que todo lucro é produzido, direta ou indiretamente, por pessoas, por gente. As modernas, poderosas e sofisticadas máquinas e equipamentos que as empresas utilizam são fantásticos recursos criados, fabricados e utilizados por pessoas para fazerem lucros através da produção de bens ou serviços.

Se alguém ainda tem dúvidas sobre a importância das pessoas nesse processo, proponho que visite uma fábrica numa manhã de domingo e se coloque no meio das máquinas e equipamentos. Então, perceberá o absoluto silêncio que reina quando não há pessoas operando aqueles “trabalhadores” de ferro e aço. Verá que nada se mexe. Máquinas e equipamentos que valem milhões de dólares e são capazes de gerar lucros de também milhões de dólares, estarão na mais completa imobilidade. Inúteis. Improdutivos.

Recomendo ainda que esse visitante volte na segunda-feira, durante o expediente, vá ao mesmo lugar onde esteve na véspera, e então entenderá o que estou tentando explicar quanto ao papel dos seres humanos para a sobrevivência das empresas. Verá que a empresa adquiriu vida com a presença do Homem.

Eis o que quero dizer: se toda essa parafernália tecnológica que  movimenta milhões de dólares depende necessariamente da participação humana, o mínimo do que todos os gestores do mundo – do supervisor ao presidente – deveriam entender é da alma humana. Para que se desenvolva neles o interesse por pessoas e a sensibilidade para conhecer e lidar com a fé, as emoções, os sonhos, medos, crenças, inseguranças, forças, fraquezas e expectativas daqueles que são os fazedores dos lucros.

No que se refere à essência humana numa organização, não há a menor diferença entre gestores e colaboradores – o que parece óbvio, mas quem tem conhecimento de como se processam as relações entre lideres e liderados na maioria das empresas, vai saber que nem todos os gestores têm essa percepção ou opinião. Ou até têm, mas devido a premissas distorcidas, acreditam que se mostrarem seu lado humano aos colaboradores, perderão seu “poder”, sua autoridade, sua “força”. E assim desenvolvem o antinatural medo de ser gente.

No dia em que todos os lideres do mundo corporativo perderem esse medo e assumirem seu lado sensível, espiritual, afetivo e bem humorado, serão reduzidas a pó as lágrimas, mágoas, medos, tensões e estresses nos ambientes de trabalho. É simples assim. E para promover essas mudanças que trarão tão bons resultados a todos, ninguém precisa esperar que ocorram suicídios, depressões, ataques de pânico, hipertensão ou somatizações graves na equipe. Um pouquinho de empatia será o suficiente.

Como a vida é feita de escolhas, o líder que quiser continuar a ter medo de ser gente, deve esperar pelo dia em que poderá abrir a porta da empresa e em toda ela só verá máquinas e equipamentos que começarão logo a trabalhar sozinhas, mediante apenas o aperto de um botão na sua mesa de trabalho. Não precisará cumprimentá-las, abraçá-las nem sorrir para elas. Nem perguntar-lhes “como foi seu fim de semana?” ou “está tudo bem com você?”

Só  tem um detalhe: vai ter que esperar sentado.

Floriano Serra é psicólogo, consultor, palestrante e facilitador de seminários comportamentais. É presidente da SOMMA4 Projetos em Gestão de Pessoas, autor de vários livros e inúmeros artigos sobre o comportamento humano. Ex-diretor de RH e Qualidade de Vida de empresas nacionais e multinacionais. E-mail: florianoserra@somma4.com.br

 

AUTORIDADE x AFETIVIDADE: O DELICADO EQUILÍBRIO DA LIDERANÇA

 Esta questão é antiga, mas continua mal resolvida: o relacionamento entre chefes e subordinados ainda deixa muito a desejar em termos de qualidade, eficácia e harmonia. Antes da crise - e certamente continuará após ela - essa dificuldade era a maior causa de demissões nas empresas, em todos os níveis.
            Nas atitudes de muitos profissionais ainda sobrevive um paradigma antigo de que "chefe sorridente é chefe incompetente". E como tem gente que, até hoje, acredita nisso, quando ocupam cargos de gestão armam-se diariamente de uma feroz sisudez e um ácido mau humor como se disso dependesse a imposição e aceitação da sua autoridade.
            A esse respeito, Stephen Covey, autor do best-seller "Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes", que vendeu mais de 15 milhões de exemplares, afirmou: "A maioria das lideranças ainda está estancada no modelo de trabalhador em que as pessoas são vistas como coisas a ser controladas e reguladas. Mas hoje é imperativo ter consciência de que as pessoas são feitas de corpo, mente, emoções e espírito."
            Outro famoso guru, Peter Drucker, escreveu: "Não se gerencia pessoas. A tarefa é liderar pessoas. A meta é tornar produtivos as forças e o conhecimento específico de cada pessoa. Pessoas precisam ser tratadas cada vez mais como parceiras e não mais como empregadas. Não se pode dar ordem a elas. É necessário persuadi-las."
            E, finalmente, repito James Hunter, o consagrado autor do "O Monge e o Executivo" que há anos consta da lista dos livros mais vendidos em São Paulo: "Liderança não é o que você faz, é o que você é. Liderança tem a ver com caráter: 99% das falhas de liderança são falhas de caráter. O desenvolvimento da liderança significa o desenvolvimento do caráter."
            Essas transcrições têm o objetivo de reforçar o que venho defendendo em meus livros, artigos, seminários e palestras e que volto a insistir: a possibilidade de uma empresa ter lucro através de colaboradores felizes, depende fundamentalmente da capacidade das lideranças manterem o equilíbrio entre o uso justo e produtivo da autoridade e, ao mesmo tempo,  promoverem o calor e respeito humanos que podem ser gerados pela sua afetividade com a equipe.
            O ultrapassado paradigma que ainda leva alguns gestores ao uso inadequado da autoridade tem um equivalente contrário, aquele que diz que afetividade compromete o poder da liderança e instala displicência e irresponsabilidade na equipe. Crenças falsas e descabidas como essas são as principais responsáveis pelos climas organizacionais de desmotivação, ressentimentos e improdutividade.
            Toda empresa tem metas e resultados que necessariamente devem ser atingidos para sua sustentabilidade e crescimento. Todos os funcionários também têm metas e resultados a atingir como parte das suas responsabilidades - e é a soma desses resultados individuais que se traduz em lucro coletivo para a organização. Portanto, o interesse no sucesso desse processo é de todos, bem como a responsabilidade pela sua efetivação - e é ao líder que cabe sua condução.
            A importância da autoridade que permite ao líder tomar decisões e indicar caminhos e soluções para que a empresa atinja seus objetivos, é tão grande quanto a autoridade que lhe permite criar e manter um clima adequado de afetividade. São estes componentes emocionais que alimentam e dão força aos componentes técnicos e administrativos. Ambos devem funcionar lado a lado, pois um não sobrevive saudavelmente sem o outro.
            Há muito tempo que estudos e pesquisas sobre gestão de pessoas vêm demonstrando que gritos e caras feias das lideranças não aumentam produção nem duplicam vendas. Ao lado da autoridade disciplinadora, as lideranças precisam usar também seus corações, sem os quais os verdadeiros talentos passam a se sentir como "coisas", conforme a citação do Covey. E, como sabemos, "coisas" nada produzem.
            É simples assim.

 


* Floriano Serra é psicólogo, consultor e palestrante, presidente da SOMMA4 Projetos em Gestão de Pessoas. É autor de vários livros e inúmeros artigos sobre o comportamento humano. Ex-diretor de Recursos Humanos e Qualidade de Vida de empresas nacionais e multinacionais.

 

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