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Qualidade de vida, gurus, caracóis e dona Judith

 

Floriano Serra*

Na Europa, um caracol “ensina” às pessoas a retomada dos valores essenciais e de um ambiente de trabalho mais alegre - enquanto na entrada da agência de dona Judith há uma faixa que diz: "Aqui não há lugar para quem pensa que trabalho é bom e divertido”. Preparem-se: aí vêm os novos “gurus” importados!

De vez em quando recebo de leitores e amigos alguns e-mails que inspiram um artigo. Nesta semana, dois deles chamaram minha atenção e resolvi escrever a respeito. O primeiro desses e-mails remeteu-me à alegada baixa auto-estima do brasileiro, que o leva a achar que tudo que vem de fora é bom, em prejuízo da “prata da casa” que não merece o mesmo prestigio. Por isso encanta-se facilmente com os “gurus” estrangeiros que surgem na mídia com relativa freqüência. O que é um guru?

As definições encontradas nos dicionários permitem dois usos dessa expressão, um leve, outro mais exagerado. Penso que não há nada de errado em chamarmos jocosamente de “guru” um amigo a quem queremos elogiar, considerando-o um ótimo mentor, orientador ou conselheiro. Até aqui tudo bem. O bicho pega, pelo menos para mim, é quando algumas pessoas com tendências à idolatria dão a essa palavra o sentido de “um guia ou líder espiritual que à sua volta congrega seguidores, às vezes fanáticos”, conforme o dicionário.

Aqui no Brasil, há uma boa quantidade de executivos que facilmente elevam à categoria de “gurus” alguns autores e consultores estrangeiros, como se os mesmos tivessem descoberto algo inédito e revolucionário no segmento organizacional – seja administrativo ou comportamental. E tome-lhe modismo, best-sellers, palestras e seminários internacionais, culminando em outorgar a comenda de “guru” ao ilustre visitante.

É aqui que a injustiça aparece: os “gurus” importados são supervalorizados e os tupiniquins ficam a ver navios, apesar de já terem falado e escrito, às vezes de graça, aquilo que o mundo corporativo costuma pagar caríssimo para ler ou ouvir geralmente em inglês.

Por isso, fico apreensivo quando pressinto que vem mais um modismo estrangeiro por aí, com um “guru“ a tiracolo. Agora mesmo, segundo um daqueles e-mails recebidos, a renomada revista “Business Week”, em sua última edição européia, dá destaque a um grande movimento que vem ocorrendo na Europa, com base na Itália e ramificações na França, Espanha e em quase todo mundo, chamado Slow Food e cujo símbolo é um caracol. Esse movimento (liderado pelo jornalista italiano Carlo Petrini) prega “que as pessoas devem comer e beber devagar, saboreando os alimentos, "curtindo" seu preparo, no convívio com a família, com amigos, sem pressa e com qualidade. A idéia é a de se contrapor ao espírito do Fast Food e o que ele representa como estilo de vida”. Esse movimento do Slow Food está servindo de base para um movimento mais amplo chamado Slow Europe e que simplesmente se propõe a questionar a "pressa" e a "loucura" gerada pela globalização, pelo apelo à "quantidade do ter" em contraposição à qualidade de vida ou à "qualidade do ser".

Não há a menor dúvida de que a mensagem é mais do que positiva, mas não é essa a questão. A questão é: quantas vezes o leitor já (ou)viu esse filme em dezenas e dezenas de artigos de articulistas, consultores e palestrantes brasileiros? Aposto que só neste site vai encontrar uma dezena...

Quando li o restante da matéria, fiquei com a sensação de estar diante de um plágio, não só de inúmeros artigos meus, como de outros colegas que têm o “hobby” de escrever artigos. Leia e veja se você não vai ficar com a sensação de “dejá vu”:
“Essa "atitude sem-pressa" significa fazer as coisas sem atropelos e trabalhar com mais qualidade e produtividade, com maior perfeição, dando atenção aos detalhes e com menos "stress". Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do lazer, das pequenas comunidades, do "local" - presente e concreto - em contraposição ao "global" - indefinido e anônimo. Significa a retomada dos valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do cotidiano, da simplicidade de viver e conviver e até da religião e da fé. Significa um ambiente de trabalho menos coercitivo, mais alegre, mais "leve" e, portanto, mais produtivo onde seres humanos, felizes, fazem com prazer, o que sabem fazer de melhor."

Ou seja: os europeus redescobriram a pólvora!...

Vamos ao outro e-mail. Na contramão da vida sem estresse, brevemente chegará ao nosso País a moda lançada pelo livro “Schluss Mit Lustig”, escrito pela sra. Judith Mair, dona da agência de publicidade Mair and Others, de Colônia, Alemanha.

A notícia, publicada na revista "Amanhã" (edição 189), sob o título “Vai ser feliz em casa”, diz que dona Judith está enfurecendo os profissionais de recursos humanos, ao colocar por terra todas as teses que defendem que o ambiente de trabalho deve ser prazeroso. Para começo de conversa, na entrada da agência de dona Judith tem uma faixa que diz: "Aqui não há lugar para quem pensa que trabalho é bom e divertido." Com esta frase dona Judith detona, entre outros, Deepak Chopra, Tom Peters, Patch Adams e até seu colega Léo Burnett que pensam justamente o contrário.

Numa entrevista à revista Der Spiegel, a publicitária condena o espírito de equipe porque "essa idéia leva os funcionários a pensarem que outra pessoa vai fazer o trabalho deles". E no livro, dá “lições” de liderança: todos são obrigados a desligar o celular durante o expediente, a limpar a mesa no final da jornada, são proibidos de estender por mais de 5 minutos as conversas pessoais durante o expediente, além de desestimular relações de amizade no ambiente do trabalho. Uau!!

No que me diz respeito, não estou nem aí para esses caracóis e muito menos para essa dona Judith. Até porque caracóis e abobrinhas não devem dar um bom prato. Ainda prefiro a culinária brasileira.

*Floriano Serra é colunista do Empregos.com.br, psicólogo, palestrante e Diretor de Recursos Humanos e Qualidade de Vida da APSEN Farmacêutica.

 

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