Floriano Serra*
Profissionalmente, você pode estar numa “armadilha” que não agrega felicidade à sua
vida. A “culpa” pode ser da empresa ou do seu chefe, mas a responsabilidade de
escapar dela é sua.
Tenho um grande amigo, empresário, que tem como preocupação
permanente a felicidade dos seus colaboradores, em todos os níveis -
inclusive na mesma proporção da importância que dá aos resultados da
sua empresa. Ele não consegue imaginar uma coisa sem a outra. Ele acha
– e eu concordo em gênero, número e grau – que lucro sem
compartilhamento de felicidade, não é modelo de gestão: é exploração. Ele
pratica, na sua empresa, a “gestão do Bem”, tornando-a um lugar onde se
trabalha feliz.
Constantemente ele me nutre de boas idéias para artigos – e este aqui
nasceu, como tantos outros, de uma conversa com ele a respeito desse
assunto – felicidade no trabalho.
Portanto, cá estou, com minhas elocubrações.
Não é novidade para ninguém que o trabalho tem sido – e, em muitos
casos ainda é – motivo de infelicidade para muita gente. Tanto isso é
verdade que “70% dos trabalhadores do Brasil sofrem de estresse e 30%
deles estão no pior nível da doença, com tendências ao suicídio”,
conforme dado divulgado, há algum tempo, pela ISMA (International
Stress Management Association), seção do Brasil.
O jornal “Diário de S.Paulo”, em abril, citando pesquisa da Dra.Margarida
Barreto, que ouviu 2.072 trabalhadores para sua tese de mestrado pela
PUCSP, divulgou que “constrangimento, humilhação e desrespeito fazem
parte do dia-a-dia de 42% dos trabalhadores de S. Paulo. Submeter os
funcionários a situações vexatórias é um artifício cada vez mais usado por
empresas para garantir a produtividade.”.
Que coisa feia, hein? Mas há luz no fundo do túnel. Apesar de todo esse
quadro deprimente por parte do mercado de trabalho, posso assegurar aos
leitores que existem muitas empresas em São Paulo – e certamente em
outras cidades brasileiras – nas quais as pessoas são felizes, trabalham
com real satisfação.
Existem muitas empresas que desenvolvem e implantam programas e
práticas voltadas para o bem estar dos seus colaboradores. Empresas que
levam muito a sério a questão do respeito à auto-estima das pessoas e
que dão grande importância à qualidade do clima interno das suas
organizações, com ênfase para a alegria, a afetividade e a qualidade de
vida dos funcionários e seus familiares. Ao mesmo tempo, estimulam o
gosto pelo estudo, pela arte, pelo esporte e pelo desenvolvimento pessoal
e profissional da turma. E tudo isso sem comprometer o lucro e a
remuneração dos acionistas.
Esses empresários fazem mágica? Nada disso. Apenas sabem que as
empresas hoje precisam ter “consciência de que as pessoas são feitas de
corpo, mente, emoções e espírito” e que, por isso mesmo, “não podem
mais serem vistas como coisas a ser controladas e reguladas”, como só
agora reconhece o “guru” (aaaaargh!) Stephen Covey em entrevista
recente.
Não vou nem falar do meu “A Terceira Inteligência” para que este artigo
não pareça comercial. No entanto, gostaria de apontar alguns aspectos
dessa questão da felicidade no trabalho.
Para mim parece óbvio que a felicidade não é obtida pela informação nem
pelo conhecimento – porisso mesmo não há MBAs, mestrados ou
doutorados nessa matéria. A felicidade é internalizada através de
percepções e sentimentos. Ninguém sabe que é feliz, mas sente que o é.
A felicidade deve ser descoberta, deve ser encontrada dentro da própria
pessoa. Ela só pode ser conquistada por você dentro de você. Ninguém
tem o poder de fazê-lo feliz, porque a porta que dá acesso ao seu coração
abre-se de dentro para fora. Só entra ali o que e quem você permitir.
Alguém ou algo precisa cativá-lo a ponto de dar-lhe o sentido e o
sentimento da felicidade. Quantas pessoas à sua volta se esforçam para
fazê-lo feliz e não conseguem?
O que estou querendo dizer é que, mesmo que os estímulos geradores da
felicidade sejam externos, o processo que conduz à autopercepção da
mesma é exclusivamente interno. Dependem da sua receptividade para se
tornarem efetivos.
Por outro lado, os fatores geradores de felicidade não valem igualmente
para todas as pessoas. Cada uma tem sonhos, necessidades e
expectativas próprias e diferentes das demais. O que me faz feliz pode não
ter o mesmo efeito para você. Alguns necessitam de pompa e
circunstancia para isso, outros encontram a felicidade em coisas simples e
rotineiras.
Eis o resumo do que quero dizer: ser feliz no trabalho é um direito seu,
mas é também uma responsabilidade sua.
Claro que um lider de verdade pode contribuir – e muito – para que você
se sinta feliz no trabalho. Eu disse um lider de verdade. Não me refiro
aos que são chamados de “líderes” por força do cargo, equívoco que
muita gente boa comete. Cargo não outorga liderança a ninguém.
Liderança é uma qualidade pessoal e intransferível; não depende de
estruturas nem de sistemas para ser legitimada.
Sobre esta questão, no meio de tantas definições de liderança que há no
mercado, tenho a pretensão e a ousadia de ser simples: Liderar é
produzir resultados através de pessoas felizes. É simples assim. Para
mim a verdadeira liderança consiste em promover e permitir a felicidade
entre os liderados, de forma a fazê-los voluntariamente perseguir e atingir
os objetivos com motivação e comprometimento.
Não pretendo ensinar ninguém a ser feliz – já disse que felicidade não se
aprende. Também não quero ensinar ninguém a ser líder. Todos somos
líderes em estado latente. Assim como a felicidade, o potencial da
liderança está dentro de cada pessoa. Tudo do que precisamos é trazer
essas energias para fora, praticá-las e compartilhá-las.
Como disse o médico austríaco Wilhelm Reich, o criador da Bioenergética,
“o primeiro passo para escaparmos de uma armadilha é reconhecer que
estamos numa.”
Profissionalmente, você pode estar numa “armadilha” que não agrega
felicidade à sua vida. A “culpa” pode ser da empresa ou do seu chefe, mas
a responsabilidade de escapar dela é sua. Com calma, bom senso,
planejamento, ética e profissionalismo, mas com determinação. Pense a
respeito. Veja o que dá para fazer para mudar o cenário. E tente. E tente
outra vez. Mas não esqueça de que há um limite além do qual a paciência
deixa de ser virtude.
No meu livro “A Terceira Inteligência” conclúo um dos capítulos repetindo
um sábio provérbio chinês. Conclúo este artigo com a mesma frase,
porque ela tem tudo a ver com a busca da felicidade:
"Não tenha medo de crescer lentamente. Tenha medo apenas de ficar
parado.”
*Floriano Serra é psicólogo, diretor de RH e Qualidade de Vida da APSEN
Farmacêutica, autor do livro “A Terceira Inteligência” (Butterfly Editora), 2a. edição.
floriano.serra@apsen.com.br




















