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O código samurai


Marcos Hashimoto


Por muitos anos, entre 1192 a 1868, os samurais governaram o Japão e
muito do que representa a cultura e o estilo japonês hoje, a despeito de
toda a modernidade que dominou o seu dia-a-dia, ainda está fortemente
carregado com os valores incutidos pelo código de honra dos samurais, o
Bushidô. Embora a palavra samurai resgate a idéia geral de guerreiro,
soldado ou capanga, o Bushidô foi escrito por eles para ressaltar a
importância da filosofia, das artes e da ética nas artes marciais, ainda hoje
preservados nos ensinamentos do karatê, judô, kendô, aikidô, hapkidô,
etc.
Aos mais atentos e ligados às artes marciais, à história e cultura do Japão
e ao código dos samurais, vai perceber que existem muitos elementos em
comum que ajudam a explicar um pouco o estilo do empreendedor
oriental. Boyé Laffayette em seu livro ‘O código Samurai: Princípios da
Administração Japonesa’, traz alguns destes ensinamentos:
1) Os quatro G’s (Giri, Gisei, Gaman e Gambaru): Giri significa
‘obrigação, dever, justiça’ um forte laço que une as pessoas, desde as
relações entre jovens e idosos ou entre pais e parentes, até a
lealdade mútua entre empregado e empregador. Gisei significa
‘sacrifício’ e representa a força que faz o empreendedor abrir mão da
companhia dos amigos, afastar-se da família e abandonar prazeres
pessoais para se dedicar ao seu negócio, quando necessário. Gaman
significa ‘tolerância, perseverança, resistência’ e remete para a
necessidade de agüentar o que às vezes pode parecer insuportável,
não perder a paciência nem a calma sob qualquer circunstância.
Gambaru significa ‘esforço, persistência’, a capacidade de se envolver
de forma profunda e determinada, não quebrar, não cair, manter-se
firme e forte e não desistir jamais.
2) O entendimento do Ken (visão) e do Kan (conhecimento): Precisam
vir sempre juntos para melhor entender a realidade. Através da
visão do futuro, clara e significativa, o empreendedor pode vislumbrar
melhor suas possibilidades e alternativas, que, junto com o
conhecimento do contexto e dos detalhes da operação, ajudam a
tomar as decisões mais sábias.
3) Melhoria contínua (kaizen): O samurai é um perfeccionista. Está
sempre treinando e buscando a perfeição de forma a se tornar
sempre um guerreiro melhor hoje do que era ontem. Da mesma
forma, o empreendedor é um obstinado pela qualidade, seu orgulho
pelo resultado do seu trabalho impõe um nível de excelência que
representa sempre um desafio para ele.
4) Desprendimento (Mu): O ideal do desapego tem fortes raízes na
cultura Zen budista que influenciou o Bushidô. Esta característica
pode ser facilmente identificada na sociedade japonesa que reconhece
claramente este fator como determinante para o sucesso japonês
como civilização. O desprendimento referido aqui diz respeito à
negação do individualismo e valorização do grupo. Os interesses do
grupo devem sempre prevalecer aos interesses individuais. Esta é a
essência do modelo de gestão participativa que tira posturas
autoritárias do empreendedor em favor dos stakeholders, ou grupos
de interesse, como clientes, fornecedores, parceiros, governo,
funcionários, acionistas, etc.
5) Caráter: Outro princípio filosófico que o Bushidô importou do Zen foi
a idéia de que o trabalho deve ser visto como uma forma de
engrandecer o caráter das pessoas. De fato, empreendedores
verdadeiros não são motivados pelos resultados financeiros, mas sim
pela experiência adquirida, pelos contatos desenvolvidos, pelo
aprendizado construído e pelos desafios impostos.
6) Atitude mental (Mushin): O código dos samurais diz: ‘É difícil derrotar
os inimigos; é fácil derrotar a si mesmo’. Esta pode ser a mais
valorizada virtude dos samurais para os japoneses, bem como a mais
difícil de se desenvolver. Meditação, privações, confrontações com
sentimentos como o medo e resistência à dor faziam parte deste
processo. Todo o treinamento se concentrava no auto-conhecimento,
que gerava auto-confiança e a decorrente segurança nas decisões em
momentos de crise e dificuldade.
7) Confiança (Amae): Por natureza, o samurai acredita, em primeira
instância, que as pessoas, de uma forma geral, são boas e honestas.
O pressuposto básico que permeia todo início de relacionamento é a
confiança. Comer e beber juntos, trocar presentes e lembranças de
amizade, participação em fases da vida são formas de construir o
‘amae’. Normalmente o empreendedor também adota uma postura
parecida com esta, que às vezes, é confundida no Brasil como
‘ingenuidade’, mas na verdade, é apenas a manifestação de confiança
irrestrita. Eventualmente, as pessoas podem provar que não
merecem tal confiança e embora o preço possa ser alto, o
empreendedor prefere aprender desta forma sobre o caráter das
pessoas.
8) Habilidades escondidas (Ude): Ao contrário da cultura ocidental, que
valoriza a auto-promoção, o marketing pessoal, a exploração das
próprias qualidades e habilidades, entre os japoneses é comum
manter-se escondido, mostrando um perfil modesto, restrito, contido
e reservado, sem vangloriar-se ou exibir-se gratuitamente, deixando
para revelar suas mais importantes forças no momento apropriado,
surpreendendo a todos e de forma estratégica. Por este motivo,
símbolos de poder, como salas executivas, benefícios exclusivos ou
qualquer evidência de superioridade são rechaçados na cultura
oriental.
9) Intuição (Haragei): É comum atribuir a capacidade perceptiva e
intuitiva ao empreendedor. Entre os samurais, esta característica é
fundamental aos seus instintos. Haragei significa ‘pensar com o
estômago’ e era um dos traços que famosos empresários japoneses
como Konosuke Matsushita, Soichiro Honda ou Akio Morita
compartilhavam. A observância a detalhes, a visão holística, o
conhecimento tácito, a disciplina constante na educação fazem parte
deste treinamento, herdado dos samurais.
10) Harmonia (Enman): Das artes marciais à cerimônia do chá, da
culinária às manifestações artísticas como o ikebana, tudo o que
permeia a cultura japonesa contém elementos que se traduzem em
equilíbrio, harmonia e balanço. Nas relações de negócios, a paciência
é uma virtude essencial que se traduz em longas rodadas de
negociação e a busca da compreensão da posição do outro ajuda nos
ajustes mútuos constantes para encontrar soluções ganha-ganha. A
situação vitorioso-derrotado é indesejada, mesmo em situações de
guerra. Até bem pouco tempo, um jogador japonês típico não
comemorava os gols marcados por considerar uma falta de respeito
para com o adversário.

 

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