Floriano Serra*
Quase todo articulista já se rendeu à tentação de, no começo de cada ano, escrever sobre a necessidade das pessoas fazerem novos projetos e tomarem novas decisões para a próxima temporada – e, claro, também propor que seja feito um balanço do que foi ou não foi realizado no período passado, apesar dele também ter sido iniciado com um rol de promessas bem intencionadas. Eu não sou exceção e, através de vários artigos, fiz coro com muita gente: ano novo, vida nova!
No entanto, decorridos tantos Anos Novos, caiu-me agora uma ficha e aprendi uma valiosa lição que me fez mudar a toada desses meus artigos de começo e fim de ano: não há porque ninguém elaborar uma bem intencionada lista de novas condutas e planos para vigorar a partir de 1º. de Janeiro. Sem essa de Ano Novo, vida nova. Chega de “a partir do primeiro dia do novo ano, tudo vai ser diferente”. Porque isso é o que basta para serem prorrogados todos os prazos das tradicionais promessas de iniciar regimes, dietas, ginástica, controle da gula, diminuição do cigarrinho/uisquinho/cervejinha/chocolate, fazer aquela cirurgia, mudar de emprego, (des)casar, voltar à faculdade – sabe-se lá mais o que.
A grande sacada é de uma obviedade encantadora: todo dia é dia de vida nova, de novas ações e tomada de decisões, seja 17 de março, 14 de julho, 12 de outubro – seja amanhã, hoje ou exatamente agora!
Para algumas pessoas, deixar para começar qualquer projeto ou adotar novos padrões de conduta no próximo ano ou a partir de segunda-feira, “um dia desses” ou simplesmente “depois”, acaba sendo uma maneira cômoda e fácil de adiar a necessidade de reconhecer e assumir uma mudança na vida – seja na esfera pessoal ou profissional.
Sabe-se que há duas coisas na vida corporativa que têm o igual poder de inquietar e atemorizar a maioria dos profissionais: mudanças e tomada de decisão. São coisas em geral tão difíceis de lidar que há uma montanha de cursos, seminários, livros e palestras continuamente disponíveis no mercado sobre esses dois assuntos. E para complicar a situação, essa dupla terrível anda quase sempre juntinha. Uma vem logo antes ou logo depois da outra – quando não aparecem ao mesmo tempo. Pense um pouco a respeito e veja se isso não é verdadeiro.
Pois bem, essa história de “ano novo, vida nova” tem um pouco de ambas. Quando dizemos “vida nova”, estão claras as implicações no que se refere às mudanças. De acordo com o entendimento geral desta expressão, “vida nova” implica modificar seus habituais padrões de comportamento, suas expectativas – e às vezes até sua filosofia de vida. E isso não é exatamente o que se pode chamar de fácil.
Acontece que qualquer mudança que se pretenda adotar, seja em que contexto for, implicará quase sempre na tomada de várias decisões – como, por exemplo, romper com relações, hábitos, estruturas, contratos e tradições - pessoais ou profissionais. O que também não costuma ser nada fácil.
Promover mudanças e tomar decisões não são coisas fáceis de fazer, repito, mas por isso mesmo são tão valorizadas e admiradas as pessoas que sabem fazê-las com acerto, adequação, firmeza e coerência.
Agora voltemos ao “xis” da questão motivadora deste artigo e que vai contra essa história de “ano novo, vida nova”: as dificuldades inerentes às mudanças e tomadas de decisão não serão maiores nem menores, tampouco mais fáceis ou difíceis, em determinados dias do ano. Tanto faz ser começo, meio ou fim dos 365 dias. O que conta mesmo é a energia interior ou qualquer outra expressão que se dê à palavra “determinação” – e ela está no interior de cada um de nós. Pode até ser que de forma latente, mas está lá. Cabe a cada indivíduo usar adequadamente essa energia para tomar as decisões e promover as mudanças que julgar necessárias para sua evolução pessoal e profissional e sua felicidade em geral.
Enfim, ao longo dos tempos, continuemos abrindo champanhes, cantando e dançando na mudança dos anos, sob a luz e o pipocar dos fogos de artifício – em casa, na avenida, no clube ou na praia. Mas que o pretexto desse momento seja a oportunidade da festa, da alegria e da confraternização com amigos e familiares - mas nunca como sinal de largada para mudanças e decisões que não dependem do calendário.
* Floriano Serra é psicólogo, diretor de RH e Qualidade de Vida da APSEN Farmacêutica, eleita pelo 5o. ano consecutivo "uma das Melhores Empresas para Trabalhar no Brasil" (Revistas EXAME- VOCÊ SA/FIA e ÉPOCA/GREAT PLACE TO WORK). Este ano também foi eleita a 31a. Melhor da América Latina (GPTW) e, pelo terceiro ano consecutivo, a 2a. Melhor para Estagiar (CIEE/ABRH-SP/IBOPE Solution).
17/12/2008




















