| Disciplina ou rebeldia |
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Mariliz Pereira Jorge Para se destacar no mercado de executivos, profissional deve ter muito de "barrichello" com uma pitada de "romário"
Barrichellos
Objetivomarcar pontos Característicasobediente - passivo - espírito de equipe - sabe lidar com frustrações - persistente - focaliza resultados - submisso - racional - menos criativo - menos persuasivo - mais fraco na argumentação - solidário - carente de estímulos
Áreas onde se dão melhoradministrativa - recursos humanos - produção
Romários
Objetivomarcar gols Característicasrebelde - agressivo - individualista - briga mais pelo que quer - renitente - egocêntrico - assume mais riscos - emocional - mais criativo - mais persuasivo - mais forte na argumentação - egoísta - automotivado
Áreas onde se dão melhorfinanceira - comercial - jurídica
Fonte: Manager Assessoria em Recursos Humanos
Nas últimas semanas, dois eventos esportivos monopolizaram as discussões no país: primeiro, a não-convocação do rebelde Romário para a Copa do Mundo e, no domingo passado, a derrota deliberada do obediente Rubens Barrichello.
Além de alimentar as mesas redondas de esportes do domingo à noite, as celeumas colocam em evidência dois perfis de "trabalhadores" aparentemente opostos e lançam uma pergunta: o que é mais valorizado hoje no mercado?
A primeira reação dos consultores é, diferentemente da maioria da população, valorizar a freada de Barrichello. "Ele foi racional e extremamente estratégico naquela situação. A empresa pôde contar com ele, mesmo que ao fazer isso, tenha sacrificado projetos pessoais", analisa Thomas Case, presidente do grupo Catho, que já cuidou do futuro profissional de 27 mil pessoas.
Ricardo de Almeida Prado Xavier, presidente da Manager Assessoria em Recursos Humanos, concorda:
"Barrichello foi inteligente e agressivo ao segurar a vitória até a última volta, deixando claro que estava cumprindo ordens. Agressividade tem mais a ver com usar bem as oportunidades do que simplesmente tomar determinadas atitudes. O bom profissional faz isso: capitaliza até quando a situação é contra ele".
Segundo os especialistas, um profissional "romário" marca muitos gols, mas seus defeitos costumam encobrir suas proezas. É o tipo de empregado que falta aos "treinos" (odeia programas de qualidade, por exemplo), dá mau exemplo ao resto da equipe (faz seus próprios horários, diz o que pensa, mesmo quando isso pode prejudicar a empresa), não costuma "suar a camisa" (tem talento suficiente para entrar apenas nos projetos com potencial vencedor), além de atribuir a si toda a glória de cada conquista.
Na hora de contratar, um empregador vai sempre pesar as dificuldades de trabalhar com um "gênio indomável" desses. Em uma pesquisa feita pela empresa de consultoria Anthropos Consulting, com cem empresários, 75% dos entrevistados disseram que não gostariam de ter um "romário" como seu subordinado.
Mas esse mesmo percentual respondeu que gostaria de ter um "romário" na empresa -provavelmente, em outro departamento.
A aparente contradição mostra que, apesar de todos os problemas, o talento, a criatividade e a capacidade de assumir riscos de um craque não podem ser totalmente dispensados. "Esses profissionais encontram espaço porque apresentam resultados e, numa reunião de acionistas, o que interessa são os lucros e quem está ganhando o jogo", explica o antropólogo Luiz Marins, autor da pesquisa.
Marins afirma que os "romários" podem até ter sucesso, mas serão sempre preteridos nas "convocações" que, no mundo empresarial, são as promoções na carreira. "Eles são deixados de lado por quem tem poder de convocá-los porque representam uma ameaça ao espírito de equipe", diz.
Cabeça no lugar É exatamente esse "team work", como chamam os consultores, um dos pontos fortes de Pedro Goyn, 31, diretor de soluções e-business da Siemens, apontado como um dos 20 CEOs (chief executive officer) do futuro entre mil candidatos, em uma seleção feita pela revista "Você S.A." em dezembro.
"Dentro de uma empresa, todos têm que dançar conforme a música. É preciso ser diplomático. Quem chega derrubando tudo cria um temor nos que estão ao redor", diz Goyn, que é engenheiro eletrônico, pós-graduado em marketing e poliglota -fala quatro línguas.
Situações de impasse, nas quais é preciso manter a cabeça no lugar, Goyn diz enfrentar todos os dias. Já sobreviveu a processos de reestruturação onde se viu perdendo poder e admite que a sensação de "esvaziamento" não é nada "agradável". "É duro, mas o profissional precisa ter a capacidade de entender por que está passando por aquilo. Foi o que o Rubinho fez na semana passada. Agora, é bom deixar claro que nenhuma empresa quer um funcionário passivo o tempo todo", afirma.
Em uma auto-análise rápida, Goyn diz reunir qualidades de "romários" e "barrichellos". "Do Romário, tenho a ousadia, que me permite fixar metas sem medo de errar. Como Rubinho, sou muito disciplinado. Costumo dizer 'nunca leve ao chefe do seu chefe o que você pode resolver com o seu chefe'. É possível ser ousado, sem ser um grande contestador", defende.
Mas como estabelecer esse limite? "É uma equação complicada", responde Goyn. "Acho que é uma coisa de bom senso que se define de maneira inconsciente nas relações do dia-a-dia. Nesse sentido, eu nunca me preocupei com os limites porque se você está sempre pensando até onde pode ir, dificilmente vai alcançar seus objetivos."
Arroubos no jogo Quando se está à frente dos negócios, fica mais fácil liberar o lado "romário". O empresário Carlos Alberto de Oliveira Andrade, 58, dono da rede de concessionárias de automóveis Caoa, é um representante típico do time daqueles que não têm medo de ousar. No domingo passado, Andrade "pegou carona" em uma enigmática campanha publicitária do cartão American Express, que perguntava em outdoors espalhados pela cidade "Cadê o Sérgio?". "O anúncio me chamou a atenção. Pedi à agência que atende a concessionária para fazer alguma coisa a partir dali. Colocamos, então, na primeira página do jornal a frase 'Sabe o Sérgio?' e, dentro, outro anúncio dizendo que ele foi visto reservando um modelo Supercharge na Caoa", conta Andrade. Por enquanto, "ninguém ligou para reclamar", garante o empresário.
As idéias de Andrade, que em 23 anos tornou-se o maior revendedor Ford do Brasil (além de representar as marcas Subaru e Hyundai), são sempre "exuberantes". Quando ainda era médico -foi cirurgião gastroenterologista por cerca de dez anos-, já exercitava seus dotes comerciais enquanto Romário ainda engatinhava. "Comprava plantão dos amigos; propunha pagar a metade do que eles ganhariam e ficava com o resto. Trabalhava sem parar. Resolvi morar no hospital, em um quartinho que tinha uma cama de campanha", lembra.
O negócio das concessionárias começou em 1979. A origem de tudo foi uma grande "roubada": ele quis trocar seu Ford Landau mecânico por um automático e procurou uma concessionária em Campina Grande, na Paraíba, onde nasceu. O vendedor disse que o carro estaria lá em 30 dias, mas em 120 não tinha entregado.
"Percebi que eles estavam quebrados e só vi uma saída: negociei a concessionária pelo preço de cinco carros iguais àquele. Eles estavam vendendo por R$ 7 milhões. Comprei por R$ 5 milhões", conta. Em menos de um semestre, a concessionária, que vendia 16 carros por mês, estava vendendo cem, mais do que a de Salvador e de Recife. "O pessoal da Ford me procurou para saber qual era a mágica. Eu disse que, se uma pessoa quer comprar um carro, e eu vender, o negócio vai ser feito. Se o camarada vai pagar com cavalos, tijolos, eu não sei, mas que ele vai sair dali com o carro, isso vai", explica Andrade.
Ele reconhece que se arrisca nesses arroubos, mas diz que faz parte do jogo. "Tem gente que dribla direitinho, mas não marca gol", compara. Como empregador, Andrade valoriza a ousadia, mas diz que "o sujeito não pode ser 'romário' demais". "Evito estrelas na minha equipe porque elas normalmente são muito independentes. Um time tem de ser comandado por apenas uma pessoa, que deve ditar as diretrizes. Senão, perde-se o controle", acredita.
"O sucesso de um 'romário' e de um 'barrichello' depende da área em que trabalha. Há profissões que permitem o desenvolvimento das estrelas. Em outras, o sucesso só é obtido com participação, planejamento e decisões em conjunto", diz Felipe Assumpção, presidente no Brasil da Spencer Stuart, uma das mais importantes empresas de recoloção de executivos do mundo. Perfis opostos, Romário arriscou, ficou fora da Copa, mas tem grande parte da opinião pública ao seu lado. Barrichello, mais cauteloso, evitou a vitória para não desobedecer à decisão da Ferrari e provocou a primeira vaia de um pódio na F-1. Escolha o baixinho certo para torcer aos domingos e outro para incorporar durante a semana.
FRASES"Em uma empresa, todos têm que dançar conforme a música" Pedro Goyn, 31, diretor de soluções e-business da Siemens
"Tem gente que dribla direitinho, mas não marca gol" Carlos Alberto de Oliveira Andrade, 58, dono da rede de concessionárias de automóveis Caoa
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