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Quem é o dono da verdade na sua empresa? E-mail


Floriano Serra*


Grande parte das empresas - nacionais ou multinacionais - está cheia de
“donos da verdade”. São aqueles profissionais que acreditam ter o
monopólio das certezas, a patente da sabedoria, a marca registrada das
soluções infalíveis.
Vejam só: diz a imprensa que o Conselho de Ensino do estado norteamericano
do Kansas, aprovou neste mês uma nova regra para o ensino
de Ciências, em função da qual os professores terão que explicar aos
alunos a teoria de que a vida pode ter origem divina!
Essa nova tese está sendo chamada de “Teoria do Desenho Inteligente”
(definida como “a visão de que a natureza demonstra sinais tangíveis de
que foi desenhada por uma inteligência pré-existente”), baseada na
Gênese da Bíblia. Isso contesta as idéias de Darwin, para quem as
espécies evoluíram por conta própria ao longo de milhões de anos,
adaptando-se às condições naturais.
O que isso tem a ver com o mundo corporativo ou com teorias
organizacionais? Vou explicar.
Grande parte das empresas - nacionais ou multinacionais - está cheia de
“donos da verdade”. São aqueles profissionais que acreditam ter o
monopólio das certezas, a patente da sabedoria, a marca registrada das
soluções infalíveis.
E por causa dessa “certeza”, quase sempre sem respeitar o direito do
outro de discordar, aqueles profissionais impõem suas “verdades” em
todos os setores e atividades da organização e, o que é mais lamentável,
espalham seus vírus também na cultura e nos valores da empresa. Neste
caso em particular, o estrago é maior, porque a contaminação que é
apenas de uma cabeça, por força de um indevido “poder” passa a ser
injetada à força, gradativamente, nos corações e mentes dos
colaboradores.
No contexto dessas organizações, não há diálogo. Não há espaço para
argumentação e muito menos contra-argumentação. Qualquer atitude ou
pensamento contrário ao da “verdade absoluta” é logo desqualificado,
ignorado ou simplesmente rejeitado.
Uma pena. Não há fórmula mais eficaz para envelhecer depressa pessoas
ou organizações do que se deixar reger por uma obsessiva e radical
postura de jamais mudar de idéia ou de opinião por acreditar numa
verdade absoluta.
Nada pior para um gestor que supor que sua idéia é sempre a melhor.
Nada pior para um grupo que aceitar, de cara, a primeira idéia que lhe foi
apresentada. Nada pior para uma pessoa que, de tempos em tempos, não
questionar suas próprias “verdades”.
Talvez o antônimo mais adequado para “verdade” não seja “mentira”, mas
“humildade”. As pessoas de bom senso e as praticantes daquela humildade
que só os verdadeiramente fortes possuem, sabem que, por mais certeza
que tenham a respeito dos seus conceitos e pontos de vista, sempre
devem deixar uma margem para admitir que possam estar enganados - ou
apenas desatualizados. Estes aprendem muito mais, porque são receptivos
a outras hipóteses e alternativas que não exclusivamente as suas.
Alguns autores e palestrantes, que chegam a galgar alguns degraus de um
questionável sucesso comercial, tendem a incorrer nessa “síndrome da
verdade absoluta” e atingem o ápice quando recebem o título honorífico -
e às vezes ridículo - de “guru”. E, há décadas, eles vêm afirmando
categoricamente que têm a solução de todos os males organizacionais...
Quem já pagou para ver, sabe quão cara foi a aventura de tentar comprar
uma “verdade”.
Na minha modesta opinião, prefiro propostas no lugar de verdades.
Quanto mais simples e honestas forem as propostas, melhor. Na verdade,
penso que toda teoria não deveria passar mesmo de uma proposta. Já que
ninguém tem o monopólio da verdade, o máximo que alguém pode fazer é
sugerir uma teoria, idéia ou conceito como proposta de possível solução, a
ser avaliada e testada – se for da conveniência de todos.
E mesmo que se trate de uma proposta considerada “absurda” ou
“ridícula”, merece ser avaliada e testada sem preconceitos ou má vontade.
Foi essa postura humilde que permitiu as grandes descobertas e invenções
em toda a história da Humanidade.
Agora, posso relacionar esses comentários com a introdução do artigo,
onde me referi à “Teoria do Desenho Inteligente”.
Eis o que quero propor para reflexão, com este artigo: se um Conselho de
Ensino - não importa de que país, mas sim a validade dessa instituição
colegiada - tem a disposição, o desprendimento e, claro, a coragem de
propor mais uma alternativa para tentar explicar a origem de vida - algo
que a toda-poderosa Ciência não conseguiu fazê-lo durante todos esses
longos séculos que vem tentando - por que um único indivíduo numa
empresa, independente do cargo que ocupa, não pode admitir hipóteses
mais simples, como, por exemplo, a de que a solução da liderança não
está nos gritos, agressões e perdigotos, mas numa relação de respeito,
justiça, reconhecimento e afetividade com a equipe?
Porque estes mesmos “donos da verdade” não conseguem admitir uma
simples revisão ou reflexão acerca do seu destempero comportamental ou
descontrole emocional - frutos de suas "verdades" - a despeito dos
constantes e inúmeros destroços emocionais que vão deixando por onde
passam, nas suas organizações?
Moral da história: muitas vezes, em muitas empresas, a solução dos
problemas que podem tirá-las do prejuízo ou salvá-las da falência, está a
poucos metros da sala do “dono da verdade”, bem ali onde se reúnem
seus pares ou simples auxiliares de escritório, analistas, técnicos,
vendedores, operários, secretárias, estagiários...
Uns poucos passos e uma pequena dose de humildade podem evitar o
nostálgico fracasso de muitas empresas onde os detentores das
decisões supõem deter também o monopólio de uma falsa “verdade”.
Desculpem o trocadilho, mas é verdade ou não é?

*Floriano Serra é psicólogo, diretor de RH e Qualidade de Vida da APSEN Farmacêutica,
autor do livro “A Terceira Inteligência” (Butterfly Editora), 2a. edição.
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