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Leticia Colombini Veja como os consultores de carreira podem ajudar você a resgatar a motivação (e a alegria) no trabalho
Você trabalha oito, dez, doze horas por dia, de segunda a sexta-feira e, não raro, sacrifica boa parte de seu fim de semana em favor da empresa. Acontece que, lá no fundo, você sente que alguma coisa está errada - ou faltando. Não sente prazer nem vê significado no que faz. E, pior, não consegue identificar quais as causas da insatisfação nem o que fazer para resgatar o entusiasmo. Neste caso, talvez você esteja precisando ouvir uns bons conselhos. E ninguém melhor do que um consultor de carreira, alguém de fora da empresa, para ajudá-lo a descobrir, de forma isenta, quem você é e o que quer de verdade.
Também conhecido como counselor (ou conselheiro), ele geralmente tem formação em psicologia e ampla experiência no mundo corporativo. É capaz, portanto, de lidar não apenas com os aspectos relacionados à carreira mas também com o lado emocional das pessoas. "O serviço de counseling é recomendado aos que passaram por uma situação-limite, algum tipo de crise pessoal ou profissional ou, ainda, aos interessados em encontrar caminhos de desenvolvimento mais compatíveis com seu perfil", diz Waldir Bíscaro, consultor de carreira com 40 anos de experiência nas áreas de orientação e treinamento de grandes empresas. Dentro do setor de consultoria, o counseling é o nicho que mais cresce nos Estados Unidos, segundo a National Career Development Association.
No Brasil, os sinais de evolução da atividade também são claros, embora em menor proporção. Esse é um tipo de serviço, no entanto, que não costuma constar no portfólio das grandes consultorias. Os counselors, em geral, são autônomos. A maioria trabalha para pessoas jurídicas, atendendo grupos de funcionários indicados pelas empresas. Mas há alguns que estendem seus serviços a pessoas físicas. A consultoria individual costuma levar de dois a seis meses (são cerca de dez sessões), e o preço do pacote varia de 1 000 a 5 000 reais.
Um trabalho que combinasse com seu jeito de ser. Eis o que Milton Zymberg, diretor de negócios da Diagnósticos da América, a maior rede de medicina diagnóstica da América Latina, desejava, quando foi encaminhado pela empresa para conversar com um consultor de carreira, no início do ano passado. Zymberg entrou na companhia em 1977 como técnico de laboratório. Aos poucos, foi crescendo até se tornar superintendente técnico operacional. Nessa época, se reportava diretamente ao presidente e coordenava 75% de um total de 1 200 funcionários. Mas, mesmo à frente de um departamento estratégico e com todas as regalias reservadas ao alto escalão, ele se sentia desconfortável. "Aquele trabalho definitivamente não combinava comigo", diz. "O resultado é que fui me tornando cada vez mais desmotivado e, por tabela, menos produtivo."
O fraco desempenho acabou chamando a atenção da empresa, que decidiu buscar ajuda de alguém de fora. "A experiência foi fantástica", diz Zymberg. "Passei por um amplo processo de autoconhecimento, no qual tomei consciência das minhas habilidades e deficiências, aspirações e necessidades, grau de competitividade e auto-estima etc." Ao fim do processo, ficou claro que o interesse do executivo estava nas áreas de marketing, comunicação e vendas. A solução: desde abril do ano passado, é ele quem responde pelo departamento de negócios e relacionamentos, que inclui as três atividades.
O QUE É EXATAMENTE?
Como se vê, o aconselhamento de carreira envolve três questões básicas: o que há de errado em sua vida profissional? O que vai bem? E o que está faltando? O objetivo do serviço é aliar sua experiência profissional às suas necessidades e expectativas. Para descobrir mais sobre valores, habilidades, traços de personalidade e objetivos das pessoas, a maioria dos consultores segue uma metodologia parecida. As abordagens, porém, são diferentes. Alguns pedem ao cliente para elaborar um jornal com as principais manchetes de sua vida profissional. Outros sugerem que ele traga o currículo para, juntos, o reavaliarem. Além disso, é comum usarem também testes psicológicos, questionários, jogos lúdicos e até dramatizações. Mas, assim como fazem os terapeutas, os counselors não abrem mão da boa e velha conversa olho no olho. A diferença entre a terapia e o aconselhamento? "A terapia tradicional se restringe a assuntos pessoais, não tem prazo para terminar e, em geral, o terapeuta ouve, mas não intervém", diz Waldir Bíscaro. "O aconselhamento de carreira, por sua vez, destaca o lado profissional, tem prazo para acabar e o mediador porta-se como um facilitador, auxiliando o cliente a entender melhor sua identidade e a descobrir caminhos alternativos para a sua realização. Quando necessário, também negocia com ele mudanças de estilo de vida."
como vida social, finanças, saúde, desenvolvimento intelectual etc. Ao procurar aconselhamento no ano passado, a intenção de Iguatemy Mendonça, diretor financeiro da Columbia Tristar, era equilibrar a vida pessoal e a profissional. "Depois de trabalhar em sete empresas e receber meu diploma do curso de MBA, minha carreira deu um grande salto", conta. "Foi então que decidi buscar ajuda para descobrir novos caminhos e continuar crescendo." Graças à consultoria, Mendonça conseguiu operar grandes mudanças em seu comportamento. Aprendeu a gerenciar melhor o estresse, voltou a fazer esportes e a dedicar mais tempo à família e aos amigos. Também se tornou mais comunicativo e flexível. E, para manter a empregabilidade em alta e aumentar sua visibilidade dentro e fora da empresa, vem seguindo à risca as sugestões do consultor: manter viva sua rede de relacionamentos, promover palestras, aparecer com freqüência na mídia (aliás, olha ele aqui na VOCÊ s.a.) e por aí afora.
QUEM QUER CONSELHO?
Mas, afinal, quem procura esse tipo de aconselhamento? "A maioria são profissionais de 35 a 40 anos, que já têm alguma estabilidade financeira, mas um belo dia se olham no espelho e perguntam: e daí?", diz Luiza Ghisi, da Tristan & Ghisi Consultoria, de São Paulo. "Em geral, eles se sentem infelizes e sem rumo." Os consultores, no entanto, são quase unânimes em dizer que a hora certa de procurar ajuda é quando os primeiros sinais de insatisfação começam a aparecer. "Afinal, você não deve procurar uma academia de ginástica só quando a balança anuncia 150 quilos."
Christine Fontelles, gerente de comunicação corporativa da Cia. Suzano de Papel e Celulose, não estava desesperada nem diante de nenhuma crise existencial quando recorreu à consultoria de carreira, em 1997. Estava, sim, inquieta com a rotina na empresa onde trabalhava e sedenta por novos desafios. "Sentia que precisava me reciclar, pois ali não havia mais espaço para inovar", diz. O serviço da consultoria, segundo ela, lhe permitiu fazer uma ampla revisão de sua trajetória e refletir sobre questões importantes.
Isso tudo acabou deixando-a mais confiante para tomar uma decisão importante: mudar de empresa. "A experiência promove, em poucos meses, um intenso amadurecimento pessoal", diz ela. "Hoje me sinto mais fortalecida em relação às minhas competências e preparada para os futuros desafios."
COMO ESCOLHER O CONSULTOR CERTO?
Antes de buscar o auxílio de um consultor de carreira é preciso estar preparado para ouvir verdades que podem doer. Afinal de contas, muitas vezes a insatisfação profissional pode ser atribuída não apenas a fatores externos, mas também às suas próprias posturas e atitudes. "Por essa razão, é fundamental que haja confiança, respeito mútuo e, sobretudo, empatia entre consultor e consultado", diz Rosa Bernhoeft, consultora de carreira há 26 anos e uma das pioneiras dessa atividade no Brasil. Escolher o consultor certo, como se vê, não é tarefa fácil. Ao contrário de áreas como medicina, advocacia e finanças, o counseling não é um campo no qual as credenciais formais signifiquem muito. O mercado adota certificados que medem apenas o conhecimento dos consultores nos princípios da psicologia, mas não dizem nada sobre suas experiências na vida real. Para encontrar um conselheiro que preencha suas expectativas, os especialistas recomendam que você converse com pelo menos três profissionais diferentes antes de bater o martelo.
É importante também ter consciência que o consultor de carreira não representa a panacéia capaz de solucionar todos os seus medos e incertezas. Ele pode, sim, abrir seus olhos, orientá-lo e dar sugestões capazes de provocar mudanças importantes em sua vida profissional. O que ele faz é azeitar as engrenagens de sua carreira - mas quem as colocará novamente em movimento é você.
Milton Zymberg CARGO: diretor de negócios e relacionamentos EMPRESA: Diagnósticos da América IDADE: 43 anos ANTES DA CONSULTORIA Ao assumir o cargo de superintendente técnico operacional, uma área estratégica da empresa, se deu conta de que o tipo de trabalho não combinava com o seu perfil. O QUE DESCOBRIU Seus verdadeiros interesses estão nas áreas de marketing, comunicação e vendas, onde pode ter contato direto com as pessoas. DEPOIS DA CONSULTORIA Mudou de área. Hoje é o responsável por um setor que inclui suas três atividades preferidas.
Christine Fontelles CARGO: gerente de comunicação corporativa EMPRESA: Cia. Suzano de Papel e Celulose IDADE: 37 anos ANTES DA CONSULRIA Estava inquieta com a rotina da empresa onde trabalhava e à procura de novos desafios. O QUE DESCTOOBRIU Que suas habilidades e competências poderiam ser facilmente aplicadas em outras companhias. DEPOIS DA CONSULTORIA Mais autoconfiante e consciente de seus talentos, aceitou um convite e mudou de empresa.
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