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É mito ou minto? E-mail

 

Mario Persona*

Acordei perplexo. O noticiário foi monopolizado por imagens da
Daslu, a loja mais cara do país, e sua proprietária presa por
suspeita de sonegação. Na CNN, Bernard Ebbers, ex-CEO da WorldCom
saía do julgamento para cumprir 25 anos de cadeia por fraude. O
mundo corporativo era o sangue da vez.

Nos canais de deputados e senadores, o reality-show das CPIs
exibia políticos e empresários suspeitos de corrupção. Dirigentes
de partidos, ministros e diretores de estatais caem como um castelo
de cartas marcadas. A bruxa voa solta de vassoura na mão varrendo
companheiros para debaixo do tapete.

Enquanto isso pesquisas de opinião mostram um presidente incólume,
como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, um bispo
evangélico, detido ao embarcar num jato executivo com malas de
dinheiro, vê sua organização continuar crescendo como se nada
tivesse acontecido. Dá para entender? Dá.

O marketing estuda a essência do comportamento humano, as
necessidades, desejos e expectativas de pessoas que funcionam à
base de combustíveis tangíveis, mas também de intangíveis, como
estima e auto-realização. Já viu automóvel Flex-Fuel? Somos assim.
E em nosso tanque cerebral há lugar para um aditivo poderoso: o
mito.

A imprensa intelectual pode denunciar os companheiros satélites do
presidente, a sociedade pode execrá-los. O presidente fica incólume
porque é um mito. Seus correligionários são ridicularizados por um
pingo de dinheiro na cueca, mas o presidente pode tomar banho de
chuveiro em seu jato, vestir Armani ou beber Romanée Conti que será
aplaudido.

Não é uma questão de certo ou errado, é uma questão mito; de ser o
retirante que virou presidente com todas as mordomias que
acompanham o sonho, não importa o preço. Mito barato não é mito. As
pessoas continuarão comprando Daslu e semelhantes por dez vezes o
preço da esquina. O mito não deixa barato.

Mito é o inacessível que todos querem ser ou ter. Sua força não
está numa ascensão lógica, mas na ausência de uma explicação para
ter chegado lá; está numa conjunção de fatores mágicos. Toda
Argentina tem sua Evita, toda Inglaterra tem sua Diana. Do nada
para o tudo.

Assim é Luke Skywalker, adorado mesmo sendo filho de Dart Vader.
Assim é Frodo, pequeno, pobre e frágil, conquistando poder e glória
sem medida. Assim são as novelas da Cinderela pobre que encontra o
príncipe e são felizes para sempre no luxo e opulência. Ou você
acredita que um presidente que virasse operário seria admirado?

É a mente humana. O sucesso que pode ser explicado pela lógica não
atrai. Gibis de super-heróis nasceram na grande depressão norte-
americana. Não eram heróis porque trabalharam, empreenderam,
fizeram academia para desenvolver o físico. Aconteceu uma mágica
e... "Shazam!", saíram voando.

O mecanismo é o mesmo do bispo com as malas de dinheiro.
Propaganda negativa para sua igreja? Não, propaganda positiva. Uma
organização que atrai pessoas menos interessadas na salvação de
suas almas do que na salvação de suas finanças jamais seguiriam
pastores pobres que viajassem de ônibus com moedas no bolso.

O mito precisa mostrar a opulência que seus seguidores sonham um
dia experimentar. Quem sonha em viajar de jato executivo com malas
de dinheiro vai admirar quem viaja assim. A imprensa e seus
intelectuais podem espernear tomando chopp no boteco ao lado do
teatro de papo-cabeça, mas mito é assim.

Mas então por que o povo baba quando vê um milionário ou
empresário condenado? Porque não encarceraram um mito. Empresários
não ascendem por mágica. Só admira empresário quem não se enxerga
muito longe de lá. Quem se vê a anos luz do sucesso, só admira quem
chega lá tomando "Shazam!", por um desígnio dos deuses, um oráculo
do Olimpo. Não por empreender, mas por "Um Dia de Princesa" de
programa de TV.

Se os faraós não fossem mágicos e não gastassem pirâmides de
dinheiro, não seriam venerados pela plebe. Sim, eu sei que estamos
na semana da queda da Bastilha e da monarquia francesa. Mas aquilo
foi um mero intervalo para os comerciais. Quando um mito cai, outro
ocupa seu lugar. Veja o que li num site de história:

"Entre 1799 e 1815, a política européia está centrada na figura
carismática de Napoleão Bonaparte, que de general vitorioso se
torna imperador da França, com o mesmo poder absoluto da realeza
que a Revolução Francesa derrubara."

Como diria o carnavalesco Joãozinho Trinta: "Pobre gosta de luxo;
quem gosta de pobreza é intelectual".

Mario Persona www.mariopersona.com.br é palestrante, consultor e
autor de Marketing Tutti-Frutti e Marketing de Gente.

 

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