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Vôo 1907 - Desastre na selva da informação E-mail


Mario Persona*


Sempre fui um apaixonado por aviação. Aeromodelista na
adolescência, dono de uma coleção de plastimodelos de aviões
famosos (inteiros até nascer o primeiro sobrinho) e piloto de
Paulistinha aos dezessete anos, voar sempre foi uma paixão.
Hoje vôo com freqüência, mas em aviões de carreira e por exigência
da profissão. Por causa desse convívio com vôos, tripulantes e
passageiros, sempre que um avião cai eu também sou atingido. Mesmo
porque já perdi um amigo muito querido em um acidente aéreo.
Por isso gelei quando uma emissora de TV noticiou que um avião
tinha desaparecido na selva. Aquele era o fato. As especulações
vieram depois no futuro do pretérito para a emissora se livrar de
ações. Primeiro, todos passageiros "teriam" morrido no acidente.
Depois, alguns "teriam" sobrevivido e "teriam" sido resgatados por
índios, que "estariam" sendo encaminhados para um hospital, que o
jato executivo que "teria" causado o acidente "poderia" estar a
serviço do narcotráfico em vôo que "seria" clandestino.
Sem saber em quem acreditar, decidi partir para o Orkut e
acompanhar o noticiário numa comunidade que alguém criou sobre o
tema. Ali um mundaréu de gente -- enquanto escrevo, já somam mais
de 220 mil -- trabalhava para descobrir links, discutir, sugerir e
boatar. Sim, boatar, porque quando a informação perde a graça, a
boataria é que grassa.
Uma das primeiras observações era de um contestador. Dizia ser um
absurdo tanto barulho por causa de alguns passageiros das classes
privilegiadas em um país com tanta desigualdade social e milhares
morrendo de fome e blá-blá-blá. Lembrei-me dos discursos cheirando
a ranço das viúvas do muro de Berlim que ainda podem ser vistas por
aí.
Então vieram as teorias conspiratórias. Alguém sugeriu que o vôo
1907 tinha algo a ver com o vôo 7091 do seriado Lost, já que os
números eram os mesmos. Outro afirmava que o avião tinha sido
levado por um disco voador. Quando encontraram o avião, mas não os
passageiros, ele mudou o discurso: era um caso de abdução. Segundo
outro, a FAB estaria testando mísseis ar-ar com aviões baseados na
Serra do Cachimbo. Não que ele quisesse insinuar algo...
Enquanto isso alguns associavam os nomes da lista de passageiros a
nomes de usuários do Orkut e vários homônimos tiveram um trabalhão
para limpar sua área de recados de mensagens do tipo "Descanse em
paz". O dia ainda não tinha terminado e a Wikipedia já trazia um
verbete de Peixoto de Azevedo comentando que o município era
conhecido por causa do acidente.
Enquanto isso, a companhia aérea descobria que qualquer plano de
gerenciamento de crises, por mais bem elaborado que seja, fica com
cara de simulador de vôo quando comparado a um desastre real.
Companhia, governo, aeronáutica e agências envolvidas descobriram
também que a comunicação com a mídia e com os parentes das vítimas
deve ser feita por profissionais de tato, não por ocupantes de
cargos ou assessores bons de papo. O desencontro das informações
era tamanho que os envolvidos pareciam só concordar numa coisa:
existia um avião envolvido no acidente.
Enquanto a mídia convencional e milhões de palpiteiros achavam ter
algo a dizer em português, um sobrevivente do outro avião
distribuía alfinetadas na mídia norte-americana usando técnicas de
parcialidade que todo jornalista experiente sabe usar quando
convém. Em meio ao fogo cruzado da desinformação, os familiares
tristes e perplexos já não sabiam mais em quem confiar. Como alguém
com o coração em pedaços iria filtrar os fatos dos boatos?
Lição a ser aprendida? A informação está cada vez mais abundante,
mas a desinformação vem a reboque. Um dia alguém disse que
"informação é poder". Agora alguém precisa avisar que "saber
discernir informação é sobreviver", pois tão abundante quanto a
informação será o volume de ruído que cada vez mais assolará nosso
ouvido.
Em quem acreditar? Em nada e em ninguém. A mídia convencional sabe
que se não sangrar não dá audiência. A mídia informal não tem
qualquer compromisso com a realidade dos fatos e tem endereço
incerto ou não sabido. De agora em diante a ordem é desconfiar e
desenvolver a capacidade de filtrar. E quando os jornais falarem em
caixa-preta fique ciente de que ela é cor-de-laranja.


*Mario Persona www.mariopersona.com.br é palestrante, consultor e autor de
Marketing Tutti-Frutti e Marketing de Gente.

 

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