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Ética empresarial E-mail

 

Wagner Siqueira

Há muitas formas de se mentir no mundo das organizações, como, de resto, na vida em geral. Você pode fazer afirmações que não são verdadeiras, superestimar ou subestimar circunstâncias e situações, reter informações que deveriam ser compartilhadas, distorcer fatos em seu interesse, contar meias-verdades que redundam em mentiras dissimuladas com aparência de verdade.

Mas há uma só maneira de se dizer a verdade. A prática da ética das organizações requer convicção, vontade política e competências adequadas para tornar as ações empresariais concretas e objetivas, minimizando as resistências e as incompreensões.

Freqüentemente o mundo dos negócios ressente-se das referidas convicções, de vontade política e das competências adequadas. A atividade empresarial reconhece, valoriza e recompensa os resultados, e não a ética.

Suborno, espionagem industrial ou caixa 2 não aéticas e ilegais, mas o que dizer da prática de embutir custos por fora nos preços anunciados, ou as letras deliberadamente diminutas constantes nos contratos para induzir o incauto à desinformação? São essas práticas aéticas? Se os concorrentes os utilizam, você também está plenamente justificado por fazer o mesmo? Ou, na verdade, são apenas desculpas esfarrapadas para as mesmas práticas aéticas?

É quase um lugar comum a afirmativa de que se pode muito bem mentir com as estatísticas, pois dependendo da forma como os números e gráficos são apresentados causam percepções inteiramente diversas. Como você se comporta quando instado por sua gerência a fazer isso?

Você já vendeu um carro sem apresentar ao novo dono os defeitos que o fizeram vender? Ou o seu comportamento varia ao vendê-lo para um comprador particular ou para uma agência de automóveis? A sua ética é relativizada em função do interlocutor?

As organizações, assim como individualmente as pessoas que as integram, precisam estabelecer e seguir diretrizes e parâmetros de comportamento e de atividades como referências para as suas ações. Abandonar as busca pela promoção do lucro a qualquer custo e o uso das justificativas trapaceiras de que os fins justificam os meios, certamente balizarão desempenhos organizacionais e individuais bem mais éticos.

As pessoas, em geral, de forma inconsciente convivem com duas éticas simultaneamente - a ética individual, como pessoa física; e a ética empresarial, no desempenho de papéis e funções organizacionais. As pessoas compartilham e seguem idéias quando há um clima de confiança mútua e de franqueza que as permite prosperar. No entanto, muitos dos mais caros fundamentos da confiança e da credibilidade têm sido desgastados pelo alucinante processo de mudanças econômica e social a que somos todos submetidos nestes turbulentos tempos de globalização.

Organizações sólidas e tradicionais, consagradas por décadas e décadas de sucesso e de credibilidade, também sofrem verdadeiros abalos sísmicos, quando não profundas crises de confiança e de imagem junto à opinião pública. O sistema político, então, nem se fala. É generalizadamente tratado com descrença e cinismo. Tudo isto nos conduz inelutavelmente à necessidade imperiosa do desenvolvimento de uma verdadeira onda de transformação nas instituições públicas e privadas, com vistas a dotá-las de maior nível de confiabilidade e de credibilidade junto ao conjunto da sociedade.

Na medida em que o caráter da economia continuar a evoluir em direção a uma produção crescentemente globalizada e à valorização exponencial do comércio de serviços, mais necessidades terão as organizações de ostentar confiabilidade e credibilidade junto aos seus mais diferentes interlocutores. Quanto mais a divisão internacional do trabalho se expandir, mais dependeremos de bens e produtos que sequer compreendemos como são produzidos, cujas origens são longínquas fábricas estrangeiras localizadas em países que mal conseguimos identificar nos mapas.

O empreendedorismo, viés moderno e inovador da nova economia, somente floresce quando protegido por altas taxas de tolerância e compreensão para o fracasso não desejado, quando há confiança nas pessoas para aprenderem com o erro, incorporarem aprendizagens através da experiência, sentirem-se livres para começar de novo, tentar mais uma ou duas vezes.

Como a confiança e a credibilidade serão percebidas na nova economia?

a) o papel dos contratos serão exponencialmente ampliados, não mais se restringindo aos comerciais, mas abrangendo inclusive as relações governamentais, para fixar medidas recíprocas de comportamento aceitável entre as partes.

b) para ganhar aceitação e confiança que possibilite a adoção de ações inovadoras, será necessário o estabelecimento de sistemas de responsabilização e de prestação de contas entre as partes, operados de forma transparente e com garantia de publicidade a todos os interessados, em que mediadores e árbitros mutuamente aceitos decidirão eventuais contendas e divergências.

c) será necessário garantir, através da mediação e da arbitragem, melhores procedimentos para recompensar e reembolsar consumidores e clientes eventualmente prejudicados por práticas das organizações.

d) a democratização da informação é uma exigência da nova economia, tornando-se necessariamente aberta, ampla e acessível a todos.

As organizações são pródigas em dicotomizar os valores proclamados e os valores reais; em diferenciar a teoria esposada, aquilo que dizemos, e a teoria de uso, aquilo que fazemos. Entre uma e outra há uma grande distância: o dizer e o fazer, a palavra e o gesto, a intenção e a ação, o discurso e o comportamento efetivo. As organizações são espaços sociais evidentes para constatar e examinar o porquê do gap entre teoria e prática. Tal gap leva ao farisaísmo e ao falso moralismo. Forma-se uma cultura de hipocrisia que, como vício da moda, acaba virando virtude.

O discurso ético sem conseqüência concreta de comportamento igualmente ético dissimula apenas o farisaísmo, estabelece a falsa moral. Falar do diabo não transforma o diabo em anjo só porque o diabo fala mal do inferno. Como dizia Nelson Rodrigues, este é apenas um logro para iludir os pascácios, isto é, os tolos, servindo muito bem para conseguir prêmios e reconhecimento, para enganar e mistificar a opinião pública.

Aquele que fala de moral e ética, de renovação de valores, sem mudar a sua própria vida cotidiana, tem na boca um cadáver, é um lobisomen ético e moral, é um arrivista de valores, um sanguessuga moral, um diarista de convicções. O engano dos falsos moralistas, que a tudo e a todos julgam, é supor que estão isentos de julgamento. O engano dos oportunistas é supor que o seu farisaísmo é eterno. Não o é. Tudo passa. Com o tempo, eles serão desmascarados. A história só registra a passagem daqueles que permanecem de pé na defesa autêntica e sincera dos verdadeiros valores morais, dos que mostram por seus exemplos no cotidiano a coerência entre o discurso e a prática, entre o que dizem e o que fazem.

O homem é um gesto que se faz ou não se faz. Não é palavra. É ação. Não é um desejo, mas o compromisso e o cumprimento de uma vida de coerência.

Devemos aprender a distinguir entre a aparência e a essência das coisas. Devemos aprender a separar Cristo do anticristo.

A austeridade não pode ser mímica. A deterioração ética do Estado e da sociedade é um espetáculo à vista de todos. Não apenas a linguagem de certos governantes e líderes empresariais reflete os sintomas evidentes dessa deterioração, mas também a corrupção de instituições inteiras, públicas e particulares. Tanto quanto o Estado também a sociedade está doente. Merece confiabilidade aquele que busca moralizar desmoralizando com a denúncia escandalosa e a acusação leviana?

Uma sociedade se revela tanto pelo que prega como sagrado quanto pelo que teme e despreza como pecado. Aquele que se deixa conduzir facilmente pelo preconceito e pelo estereótipo corre o risco de distinguir o que deve ser confundido e de confundir o que deve ser distinguido, deixando, portanto, de perceber o verdadeiro parentesco das coisas, passando a se enganar sobre a sua natureza.

Ao ver o discurso da ética veiculada por certas organizações, ao analisar os tipos de ações que respondem nos tribunais acionados por seus empregados, clientes ou fornecedores, constato com ativo ceticismo que desmoralizam a própria moralização, como diz Millor Fernandes. A pior das corrupções é a dos que se apresentam como os melhores. Aliás, quanto mais observo a realidade das organizações mais fico impregnado de um profundo pessimismo. Realmente a história não obedece aos imperativos da razão ou aos desígnios do homem de boa-fé.

O mais inexpugnável dos inimigos é o falso moralista, o oportunista de quaisquer matizes, o oportunista ideológico, partidário, intelectual, político, religioso. Em todos os moralistas e oportunistas antevejo sempre a voracidade insaciável e destruidora de um " aids social" , de um " câncer dos costumes morais". O moralismo é o último refúgio dos canalhas, exatamente porque é suficientemente abrangente para deixar todas as patifarias ao abrigo de um suposto interesse coletivo. Nós precisamos simultaneamente instituir uma legítima democracia econômica e liberar o gênio do livre mercado, que pressupõe concorrência e competência de verdade e não tentar justificar os oligopólios e o monopólio privado que vicejam sob a fachada dissimulada do neoliberalismo.

A opinião pública crescentemente se volta contra o incontrastável poder das macrocorporações à medida que são expostas as doenças intrínsecas do atual sistema corporativo mundial. Focar a busca do lucro no interesse exclusivo dos acionistas da organização, com a exclusão explícita de todos os demais interesses das pessoas que participam do processo - empregados, clientes, público, concorrentes, etc - é uma forma de discriminação fundamentada na concentração da propriedade e da riqueza.

Tal discriminação praticada por nossas instituições é tão odiosa quanto a praticada contra os negros, mulheres e deficientes. Por que se aceita sem qualquer discussão que os ganhos dos acionistas sejam as medidas adequadas de uma organização de sucesso? Por que não seriam os aumentos dos ganhos dos empregados a medida razoável e adequada?

Em verdade, parte substancial dos recursos supostamente constituintes dos fundos corporativos nas bolsas de valores de todo o mundo permanece no mercado especulativo. Não são, de fato, destinados ao desenvolvimento das organizações que os fundamentam. É necessário se desenvolver novas formas mais eqüitativas - novos direitos de propriedade, novas formas de exercício da cidadania na governança corporativa, novas maneiras de avaliar o desempenho organizacional, que construam simultaneamente uma verdadeira democracia econômica e um mercado livre fundamentados no interesse genuíno do ser humano como um todo. As iniqüidades de distribuição de renda no mundo, a poluição, os crimes ambientais, etc são apenas os sintomas, as febres e os calafrios da atual economia mundializada que privilegia tão poucos. A enfermidade subjacente primordial é a primazia dos interesses dos acionistas: toda a energia da organização é canalizada para os lucros dos acionistas, não importando quem pague o custo.

Nós equivocadamente consideramos a prevalência dos direitos dos acionistas uma lei tão natural do livre mercado como nossos antepassados percebiam os monarcas como uma determinação divina para governar os povos. Em verdade, a aristocracia organizacional, constituída pelos acionistas, é um fato não natural e, porque não dizer, absurdo. O mundo precisa encetar uma revolução em nossas instituições tão profunda como foi a Revolução Francesa de 1789. É necessário questionar a legitimidade de um sistema que assegura um poder tão desproporcional a tão poucos. E, assim fazendo, completar o desenho institucional mundial, que não pode se restringir à aplicação dos princípios formais de democracia, mas principalmente fecundar positivamente as instituições econômicas que têm que ser democratizadas.

As organizações mundiais - as macrocorporações - precisam se transformar em comunidades humanas, que, obviamente, privilegiem os seres humanos - com seus integrantes internos e externos a quem se deve igualmente prestar contas e que exercerão sobre as corporações o devido controle social!

 

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"Dá seu primeiro passo com fé, não é necessário que veja todo o caminho completo, só dê seu primeiro passo" Martin Luther King Jr.
 
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