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Liberdade para as emoções E-mail

 

Floriano Serra*

Há ou não espaço para as emoções no trabalho?

A Análise Transacional - uma das mais eficazes abordagens psicológicas para mudanças comportamentais - define que são cinco as emoções consideradas autênticas: alegria, afeto, medo, tristeza e raiva. Todos nós as possuímos, diferenciando-se, apenas, de pessoa a pessoa, seu grau e sua intensidade de exteriorização.

Além de certos mecanismos repressores ligados à infância - dos quais não vem ao caso falarmos aqui - nossa cultura, nitidamente machista, chega ao cúmulo de bloquear a manifestação de algumas daquelas emoções, conforme o sexo da pessoa, como se as emoções tivessem sexo. Assim, é "socialmente admissível", por exemplo, que o homem exteriorize raiva, seja através de palavrões, murros na mesa, agressão verbal ou até física.

No entanto, os mesmos comportamentos, se manifestados pela mulher, serão vistos como distorções da personalidade. Por outro lado, à mulher é "permitido" demonstrar medo e tristeza, porque são "coerentes" com a fragilidade que a discriminação lhes atribui. O afeto e a alegria também costumam sofrer esse tipo de preconceito: enquanto o sexo feminino vivencia mais livremente tais emoções, o homem tende a se manter "durão" e "sério", sob risco de pôr em dúvida sua competência.

Essas considerações pretendem trazer o assunto para o universo organizacional. Aqui, nas chamadas empresas "tóxicas", ou "não-OK", a distorção cultural atinge seu clímax chegando ao extremo de simplesmente proibir as manifestações de quaisquer emoções.

A justificativa mais freqüente para tal postura é de que, para se atingir as metas esperadas, é suficiente apenas o uso exclusivo da razão: há tarefas, regulamentos e procedimentos a cumprir - e a emoção só viria atrapalhar - é o que se costuma alegar. Esta é uma visão radical, além de ultrapassada. Que a racionalidade no trabalho é importante, nem se discute. O pensamento linear, a lógica, a análise, a objetividade são elementos indispensáveis às atividades empresariais.

Mas não podemos esquecer que tais atividades são exercidas por seres humanos e a emoção é - gostem ou não alguns - inerente a todos nós, gestores e colaboradores. É o fator diferencial entre o homem e a máquina. Resulta de um processo energético interior e tudo que o exterior faça para impedir sua manifestação, conseguirá, quando muito, apenas ocultá-la ou distorcê-la.

Essa é a razão pela qual toda e qualquer tentativa de se reprimir a expressão emocional no trabalho poderá trazer sérias conseqüências para o clima interno, a motivação, o comprometimento e, certamente, para a produtividade.

A raiva que não pode ser manifestada pode resultar em atos de revolta, boicote, "corpo mole", erros intencionais, boatos e até danos patrimoniais. O medo, inclusive utilizado por alguns supervisores despreparados como instrumento de manipulação e obediência, contribui decisivamente para a omissão e a passividade. Ao invés de trabalhar para acertar, a equipe passa a trabalhar com a preocupação exclusiva de não errar, comprometendo a iniciativa, a criatividade e a tomada de decisão.

Já a tristeza pode ser definida como um dos grandes motivos da queda de produtividade. Provoca a perda ou diminuição do tônus vital e da energia criadora do colaborador. Advém, quase sempre, de problemas na área pessoal: saúde, família, problemas financeiros ou nas relações afetivas. Um bom programa de aconselhamento ou orientação psicológica - que algumas empresas saudáveis já adotam - ou mesmo uma atuante assistência social poderá administrar eficazmente tal emoção, evitando que ela seja simplesmente descarregada nos banheiros - por tradição, o "muro de lamentações" nas empresas.

A alegria costuma ser permitida sob condições especiais: para comemorar o atingimento de alguma meta, aniversários ou em certas datas festivas. Fora disso, a ordem é "pau na máquina" e mãos à obra! Como se as pessoas pudessem restringir a alegria a uns poucos minutos e horas do ano e depois sufocá-la rapidamente para a volta ao trabalho.

Não estamos fazendo a apologia do clima festivo, nem da cultura "oba-oba", mas afirmando que a alegria, assim como o afeto, é uma semente que só germina se o campo for fértil e tiver sido fecundada o ano inteiro. Um clima tenso e desmotivado ao longo dos meses não pode transformar-se num estado de euforia e carinho de uma hora para outra, apenas por causa do calendário ou da programação da empresa.

Talvez seja o afeto a emoção mais "proibida" na esfera organizacional, não só pela preconceituosa conotação sexual que a acompanha, mas porque é visto como incompatível com o formalismo, a rigidez e a "seriedade" das estruturas organizacionais. Ora, a amizade - e o afeto que dela resulta - pode (e deve) coexistir pacificamente com um saudável e motivado contexto profissional. É o afeto que promove a integração, que desenvolve na equipe o conceito de colegas-amigos, proporcionando um clima harmonioso onde os problemas e desafios do trabalho são resolvidos mais facilmente e sem traumas.

Talvez um dos maiores desafios do verdadeiro líder esteja em conseguir o afeto dos liderados. O gestor que não goza da estima dos colaboradores não é líder - é apenas um chefe formal.

Em resumo: qualquer que seja a política que uma empresa decida adotar com relação à manifestação das emoções no trabalho deve levar em conta que é impossível reduzir a frias máquinas esse sensível microcosmo que se chama ser humano.

Ainda bem para as empresas: continua sendo exclusividade nossa a capacidade de vibrar e entusiasmar-se com o trabalho, porque, se dependesse das máquinas, nem tchum!

*Floriano Serra é colunista do Empregos.com.br, psicólogo, palestrante e Diretor de Recursos Humanos e Qualidade de Vida da APSEN Farmacêutica.

 

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