| A terceira inteligência nas empresas |
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Sei que o Goleman agitou um bocado o campo comportamental nas empresas, especificamente o das relações interpessoais, quando resgatou o que ele chamou de Inteligência Emocional e que, em essência, nada mais é do que aquilo que a Psicologia há tempos, através de várias formas e teorias, já vem propondo para o auto-conhecimento, o controle das emoções e o desenvolvimento da empatia e da habilidade de estabelecermos comunicações harmoniosas. Qualquer estudioso mais atento da dinâmica do comportamento humano sabe disso. O que venho defendendo através de artigos, entrevistas e palestras - e, daqui a mais um ou dois meses, também através de um livro, “A Terceira Inteligência” - é que não basta um perfeito domínio das emoções para assegurar que estamos no caminho certo, em direção ao sucesso e à felicidade – objetivos que só podem ser atingidos sob a condição da pessoa estar bem consigo mesma e com as demais pessoas. As ações motivadas exclusivamente pela emoção quase sempre têm fortes componentes de busca do prazer ou de fuga de desconforto. Nestes casos, o comando para a ação (ou a falta dela) é “faço porque gosto” ou “não faço porque não gosto” – entendendo-se aqui o verbo “gostar” da maneira mais ampla e irrestrita possível. A questão que proponho para a reflexão do leitor é: - “Ok, faço porque gosto. Mas que garantias eu tenho de que minha ação, motivada pela minha emoção, ainda que perfeitamente administrada, será boa também para as outras pessoas?" Se eu não tiver essa garantia, minha ação emocional apenas refletirá um baita egocentrismo: “é boa para mim, os outros que se danem!”. Ou seja, o perfeito conhecimento e controle da inteligência emocional não garante necessariamente que a ação seja saudável, legal, ética e útil. Daí existirem a manipulação e a famigerada chantagem emocional. Alguém poderá contra-argumentar: “ah, mas é justamente para evitar isso que existe a racionalidade! Se unirmos as duas inteligências, a racional e a emocional, então teremos a ação ideal, certo?” Errado. O processamento racional do conhecimento e das informações nos conduz à ação dita “lógica” e nos induz a fazer aquilo que acreditamos que nos convém ou que nos interessa.e não necessariamente ao que é legal, ético e saudável. No mundo corporativo ou fora dele, razão e emoção não têm moral: as grandes e inteligentes fraudes financeiras ou os dramáticos crimes passionais acontecem justamente porque sua dinâmica de ação parte desse binômio: me interessa (ou me convêm) e me agrada (ou me satisfaz). É esse o processo que, em termos existenciais e comportamentais, alimenta, de forma distorcida, a lei de causa e efeito: “se eu agir assim, sairei ganhando (racional) e isso é bom! (emocional)”.
O crivo que está faltando para assegurar que nossa ação, atitude ou comportamento serão positivos é o da avaliação das conseqüências da nossa ação para o outro, para os amigos, os colegas de trabalho, a empresa, a comunidade, a sociedade. É fundamental um auto-questionamento:
A Terceira Inteligência é simples assim. Ela se sobrepõe a conveniências pessoais e a interesses meramente materiais e caracteriza as ações sobretudo pela generosidade e pelo respeito ao próximo. É ela que nos faz transcender ao ego, como diz o Deepak Chopra, fazendo-nos substituir a pergunta “O que vou ganhar com isso?” por “Como posso ajudar?” Certamente a Terceira Inteligência tem um forte componente espiritual – e aqui é importante que se diga que isso não implica necessariamente em práticas e conceitos religiosos. A dimensão espiritual que defendo com a Terceira Inteligência tem a ver com o desejo sincero de compartilhar, sem discriminações de raça, cor, credo, aparência e posses, pela consciência de que tanto uma empresa como a sociedade e o mundo inteiro é uma grande família. Como se todos soubessem que, como disse o poeta americano John Donne, "nenhum Homem é uma ilha, isolado em si próprio (...) e que quando os sinos dobram – por mais longe que estejam – também dobram por cada um de nós, porque a raça humana é um todo composto por irmãos. Nas empresas, a liderança ou o modelo de gestão que se fundamentar na Terceira Inteligência, certamente terá colaboradores muito mais comprometidos, motivados, felizes e, por conseqüência, mais produtivos. Não sou tão ingênuo a ponto de acreditar que será fácil vender essa idéia a empresários e gestores, para os quais, com poucas e honrosas exceções, o poder é um irresistível objeto de desejo. Eu apenas planto sementes. Minha vantagem é que sou teimoso e persistente pra caramba – sem o menor receio de ser taxado de sonhador ou utópico. Quando encontro pessoas que concordam comigo, fico muito feliz. Quando alguém discorda, não me aborreço, mas considero isso um desafio – e todo desafio me estimula. E tudo que me estimula me alegra e me diverte. Logo, nessa missão de humanizar as relações profissionais, tenho alegria e diversão garantidas – de uma forma ou de outra.
* Floriano Serra é psicólogo e Diretor de RH e Qualidade de Vida da Apsen Farmacêutica. Lançará em breve seu mais novo livro “A Terceira Inteligência”. Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo
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