| O ridículo cotidiano do poder |
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Certamente, a prática do poder por pessoas sem a necessária maturidade e preparo para exercê-lo foi a responsável pela maior parte das mazelas universais. A História está cheia de exemplos, seja na esfera política, social, militar, econômica e até religiosa. O problema, pois, é antigo, mas diante dos horrores e escândalos que diariamente vêm a público, naquelas mesmas esferas e outras mais, somos levados à desalentadora constatação de que o ser humano tem aprendido muito pouco com os exemplos da História no que se refere a conviver e principalmente, a exercer o poder. Não me apraz falar dos poderes referidos acima. Há estudiosos e escribas muito mais qualificados do que eu para fazê-lo. Como tenho repetido em artigos anteriores, minha praia é o comportamento humano nas organizações e é por aqui que gosto (e sei...) de navegar. Acredito que evoluí muito na minha relação com o poder, sobretudo alheio. Por uma razão muito simples: hoje, ao invés de me irritar ou me amedrontar com demonstrações despropositadas de "poder" , aprendi a divertir-me com elas. E, mais do que isso, aprendi a achá-las ridículas. Óbvio que nada tenho contra o poder em si - até porque existem os formalmente instituídos, que nos cabe respeitar e acatar. A questão não está no poder, mas na forma como ele pode ser exercido e utilizado. As disfunções do uso do poder - justamente aquelas que chamo de ridículas - estão visíveis e presentes no nosso cotidiano. E não me refiro só ao ambiente de trabalho - basta observar o seu trajeto do dia-a-dia. Se você pega estrada de mão-dupla para vir à capital, certamente já teve pela frente aquele sujeito que insiste em dirigir a 50 ou 60km/hora, segurando uma imensa fila de outros veículos e alheio aos desesperados pedidos de passagem com farol alto, buzina e às vezes gestos nada nobres com as mãos, não é verdade? Pois é, aquele sujeito está exercendo uma espécie ridícula de poder, tornando-se quase "proprietário" de uma pista pública. E quando você vai ao shopping num daqueles domingos lotados e fica rodando com seu carro no estacionamento em busca de uma vaga? Aí você percebe que alguém vai sair e liberar uma vaga! Aqui começa a comédia: se você pensa que, solidariamente, o sujeito vai sair da vaga depressinha para que você possa estacionar e ir fazer suas compras em paz, está redondamente enganado. O "dono" da vaga vai usar e abusar de todo o "poder" que ele agora tem nas mãos, principalmente se notar que você está esperando pela vaga dele: tira (ou coloca) o paletó, acende um cigarro, curte umas baforadas, penteia os cabelos, ajeita TODOS os espelhos retrovisores do carro, procura coisas nos bolsos, liga o radio, leva tempo procurando e sintonizando uma emissora...moral da história: você acabou de se tornar mais uma vitima do ridículo cotidiano do poder. E quando você está enfrentando uma quilométrica fila para comprar ingressos para seu show predileto e um sortudo já chegou ao guichê? Não, não se iluda... Não pense que ele já está com o dinheiro na mão, de preferência trocado, para facilitar a vida de todo mundo...Nada disso! Você acha que ele perderia essa oportunidade de exercer o "poder"? Pois ele abre a carteira, faz várias consultas à parceira sobre qual dos inúmeros cartões de crédito é o mais conveniente para usar naquele dia, faz cálculos, questiona com a funcionária o preço do espetáculo, pergunta sobre os
horários, o posicionamento de cada cadeira da platéia antes de se decidir pela sua, quer saber do ar condicionado e do sistema de som, para depois concluir que é melhor pagar em cheque mesmo. De vez em quando - suprema glória! - dá uma maquiavélica olhadinha para traz para deliciar-se com as dezenas de caras mau humoradas, inclusive a sua. Como se ainda não bastasse, o sujeito decide dar uma ligadinha no celular para saber se o cunhado também quer que compre o ingresso dele - ora vamos, logo o cunhado!... Mantenha a calma, amigo. A toda hora, em qualquer lugar você vai deparar com algumas dessas pessoas que devido a complexos processos compensatórios emocionais relacionados com carências, ressentimentos e baixa auto-estima - e dos quais certamente não vou falar aqui - não perdem a oportunidade de exercer o que julgam ser uma forma de poder. Infelizmente, não há escapatória: se não for na fila do teatro, do cinema, do estádio - vai ser na fila do restaurante. Lembra de sábado à noite? Pra variar, o restaurante está lotado . Você chega acompanhado, entra no salão, dá uma panorâmica com o olhar e, de repente, percebe uma turminha que já está na fase do cafezinho. Ah, que felicidade! Então, discretamente, você e sua acompanhante vão se aproximando, buscando o meio termo entre não parecer invasivo, nem correr o risco de perder a disputada vaga. Bem, essa historia você já conhece: é claro que a turminha da cobiçada mesa NÃO VAI se levantar logo. Claro que não. É preciso exercer o ridículo cotidiano do poder. E pedem mais uma rodada de cafezinho, enquanto discutem as últimas declarações do Felipão. Depois, outra rodada para discutir as chances de cada candidato presidencial. E você, bufando... Enfim, vamos ao trabalho. Essas demonstrações não são muito diferentes daquelas que encontramos nas empresas. Quem não já assistiu (ou ficou sabendo) de uma discussão acalorada entre alguns executivos para decidir quem ficaria com a sala que tem janela? Ou aquela que tem ar condicionado? Lembra daquela outra discussão por causa do tamanho da mesa? - imagine, ficar com a menor.... E aqueles que fazem questão de ter sobre a mesa o computador de ultima geração, mesmo não sabendo nem onde fica a tecla "enter" ? E aqueles outros que exigem o aparelho telefônico ultramoderno e na hora de usá-lo têm de pedir ajuda à secretária? E quem vai ficar com o "freezer"? A televisão fica na minha sala, lógico... Não haveria espaço aqui para discorrer sobre a motivação humana para tais vaidades no ambiente de trabalho. Basta lembrar o desgaste, a perda de tempo e a futilidade dessas coisas. O que eu gostaria de deixar como mensagem é a inutilidade do chamado poder, quando não se sabe o que fazer adequadamente com ele. A quem interessar possa, não custa lembrar que o verdadeiro poder é aquele que é usado para ajudar, permitir, perdoar, unir, conciliar, compartilhar e, sobretudo produzir alegria e felicidade. Poder sem generosidade, simplicidade e solidariedade é tirania e, ao contrário do anterior, só produz lágrimas e temores. Se, nas empresas, quisermos continuar falando de harmonia no trabalho, motivação, justiça, equipes de alta performance, comprometimento, integração e qualidade de vida, é preciso que alguns profissionais deixem de lado a crença de que o poder é exercido através de ultrapassados símbolos externos de autoridade e arrogância - como gritos, murros na mesa, ameaças, ostentações materiais, títulos e demonstrações de força. É preciso que eles passem a acreditar que o gesto de se dar às mãos manifesta um poder muito mais eficaz e produtivo do que o agressivo punho fechado. Até porque esse gesto, além de não impressionar mais em ambientes realmente profissionais, corre o provável risco de se tornar mais um exemplo do ridículo cotidiano do poder. * Floriano Serra é colunista do Empregos.com.br, psicólogo, palestrante e Diretor de Recursos Humanos e Qualidade de Vida da APSEN Farmacêutica.
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