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Yes, nós temos cana! E-mail

*Mario Persona

O Tio Sam veio aqui, chupou cana, escovou os dentes e assoviou de
contente. Se antes o vizinho era o Canadá, agora vizinho é qualquer
país onde cana dá. O Brasil se alvoroçou, Zé Carioca sambou e
Carmem Miranda cantou: "Yes, nós temos cana!" O petróleo virou
vilão.

E quem vai dizer que não? Monteiro Lobato quis defender o petróleo
e pegou seis meses de cana. Mal sabia ele que um dia o país
deixaria de lado "O Petróleo é Nosso" e adotaria o lema "Cana Para
Todos". A Polícia Federal já adotou e veja no que deu. Os
canadólares apareceram mais rápido que os petrodólares.

Tirando os morros do Rio, onde a cana é difícil de pegar, a
monocultura vai tomar de assalto nosso território. O Brasil vai
ficar um verde só, do Oiapoque ao Chuí. Os ambientalistas que nos
vigiam pelo Google Maps vão pensar que reflorestamos a nação. Mal
sabem eles que o país do carnaval virou um canavial.

No interior de São Paulo, onde moro, "canaviar" é substantivo
caipirês, mas aposto que vai virar verbo. Aqui está tudo canaviado.
Se canaviar afeta a biodiversidade? Que biodiversidade? Aqui mel
tem gosto de melado, teta de vaca dá garapa e passarinho voa em
zigue-zague depois que bebe água que passarinho não bebia.

No resto do país tem gente preocupada porque o João vai canaviar a
lavoura do feijão. Geralmente quem se preocupa não está na pele do
João. Se estivesse, também iria para onde aponta o lucro imediato,
pois é assim que funciona a economia. Nosso comportamento é ditado
pela demanda.

Existe demanda por drogas, caça-níqueis e produtos piratas? Então
a cana vai correr solta, enquanto cresce a indústria de seguros,
blindagem e vigilância. Há demanda por combustível verde? Então a
cana vai crescer solta, enquanto crescem as pesquisas, equipamentos
e serviços de minimização do impacto ambiental.

Somos assim, vivemos correndo atrás do prejuízo porque buscamos
satisfação imediata. O ser humano tem olhos na frente do crânio,
como o felino predador e a ave de rapina. É essa sua natureza e
vocação, daí viver remendando sua saga destrutiva.

Quem ainda acredita na evolução humana experimente ficar quinze
minutos na Linha Vermelha no Rio meditando pela paz mundial. Em
1980 o Papa desfilou aqui em um papamóvel com carroceria anti-
chuva. Em 2007 o papamóvel de 10 milhões de reais resiste a
granadas e tiros de metralhadora e fuzil. O que evolui não é o
homem, mas a tecnologia nos mata e garante nossa sobrevivência.

Sim, é inevitável que a cana substitua o arroz, o feijão e o bife,
enquanto o álcool sobe no ranking das exportações, hoje encimado
pelo minério, soja e brasileiros no exterior. O minério não é
renovável e a soja dá também nos EUA. O jeito vai ser exportar
álcool e brasileiros, não no mesmo vôo.

Não seremos os únicos em busca de alternativa. O Dubai sabe que
seu petróleo tem data para terminar e corre para o turismo,
enquanto o Bahrain corre para as corridas e outros esportes. Nós,
quando a coisa aperta, corremos para a cana.

Mas o que será da vaca quando os pastos forem canaviados? Se
depender dos relatórios da ONU, a vaca vai pro brejo. Vacas
flatulentas são grandes vilãs do aquecimento global. Do escapamento
que trazem sob o rabo saem mais poluentes que todas as emissões de
carros e fábricas do mundo.

Complicou para os ativistas de botequim, que preferiam protestar
contra a cana sem abrir mão do espetinho de carne e do provolone
com cerveja. A cerveja fica, mas já tem gente correndo atrás de
avestruz para substituir a vaca, o que não é tarefa fácil. Além
disso, avestruz não dá leite.

A cana não corre e é mais flexível. Já inventaram até cana
geneticamente modificada para canaviar pântanos e desertos. Não
demora e a cana vai parar na mamadeira. Se os argentinos
conseguiram criar vacas transgênicas que produzem insulina humana,
e o nordeste já faz carne do bagaço do caju, o que nos impede de
inventar um alambique leiteiro?

Tenho certeza de que os pesquisadores brasileiros encontrarão mais
de 51 maneiras de utilizar a cana e os bebês do futuro já nascerão
"flex". Para quem a cana é uma ameaça, o jeito é encarar e mudar,
não tentar evitar o inevitável. Até Monteiro Lobato, petrolista
convicto, acabou desenvolvendo uma paixão secreta pela cana. Sua
biografia revela que o escritor não saía de casa sem um belo pedaço
de rapadura escondido no bolso do paletó.

*Mario Persona www.mariopersona.com.br é palestrante, consultor e
autor de Marketing Tutti-Frutti e Marketing de Gente.

 

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