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A falácia dos gurus ou "O stress é essencial para quem?" E-mail

 

Floriano Serra*

Tenho um medo danado dos gurus, porque eles podem "fazer a cabeça" de um executivo, de um político, de um artista e provocar o maior caos do mundo em ambientes que necessitam de muita paz e harmonia para funcionar.

O chamado guru nada mais é do que um sujeito carismático, que tem um pensamento a respeito de qualquer assunto, seduz a mídia e coloca esse pensamento ao alcance das multidões através de palestras, livros ou entrevistas. Dependendo do sentido (ou da falta de) das idéias do guru, algumas pessoas não dão a menor atenção a ele, porque já têm seus pontos de vista solidamente firmados. Mas outras pessoas - de supervisor a presidente de empresa e, portanto, pessoas com poder de decisão ou formadores de opinião - resolvem colocar aquilo em prática e passam a atuar como verdadeiros multiplicadores das idéias do guru. É aqui que mora o perigo, porque, com raras exceções, os gurus apresentam suas "verdades" sob o prisma da sociedade onde vivem ou atuam - ou seja, refletem seus valores, tradições, hábitos, costumes e crenças. E todo mundo sabe que o que é bom para os profissionais de uma empresa de certo país, necessariamente não o será para os profissionais de outro.

Pensei em tudo isso ao ler uma entrevista publicada recentemente pela revista "Veja" intitulada "O stress é essencial". O autor da afirmativa é o inglês Martin Sorrell, que é atualmente "dono de um império na área da propaganda, a WPP, a maior empresa de marketing do mundo, cujo grupo fatura anualmente 70 bilhões de dólares". Bom, pra muita gente isso já qualifica Mr. Sorrell como guru. Fazer o que? Vejamos algumas de suas "verdades" sobre Qualidade de Vida:
•    "Se você quiser vencer, esqueça a qualidade de vida";
•    "É preciso dedicar o maior tempo possível ao negócio. Quem trabalha oito horas por dia nunca vai ficar rico";
•    "Dedico 150% do meu tempo ao trabalho".(segundo ele próprio, costumeiramente o café da manhã, o almoço e o jantar são com executivos, para falar de negócios);
•    "A questão da qualidade de vida é uma grande bobagem. É uma válvula de escape para quem não está contente com a vida que tem";
•    "Para mim o que se chama qualidade de vida é sofrimento, (porque) hoje, temos a obrigação de nos divertir";
•    "Na minha opinião o stress do trabalho é menos prejudicial á saúde que a superficialidade e a culpa da chamada qualidade de vida".

Pois é, estas são transcrições de trechos da entrevista. Meu receio é que algum gestor, em qualquer nível, considere Mr. Sorrell mais um guru dos negócios e leve isso a sério aqui no Brasil, onde empresas altamente lucrativas, éticas, sérias e vencedoras investem milhões em programas de qualidade de vida para seus funcionários e familiares.

Não preciso citar exemplos, mas, na opinião de Mr. Sorrell, essas nossas empresas - nacionais e multinacionais - estão gastando dinheiro com "uma grande bobagem". Enfim, se alguém tiver a tentação de levar a sério as idéias de Mr. Sorrell, eu gostaria que soubesse que, segundo a Organização Mundial da Saúde (que não é formada por gurus...), cerca de 75% da população do

Primeiro Mundo morre em conseqüência de doenças vinculadas ao estilo de vida - que inclui o trabalho - e que as doenças associadas ao modo de vida - que inclui o trabalho - serão a primeira causa da mortalidade no ano 2015.

A mesma OMS informa que a depressão atinge hoje mais de 350 milhões de pessoas no mundo. Uma em cada cinco pessoas já foi ou será afetada pela depressão, que, em 2020, ocupará o segundo lugar no ranking das doenças que mais matam, perdendo apenas para as moléstias do coração. Mas vamos deixar a OMS de lado: um estudo concluído e divulgado em janeiro deste ano pela Universidade de Pittsburgh (Chicago), feito com 12 mil homens, que foram acompanhados por 7 anos, descobriu que a combinação de stress no trabalho e divórcio pode ser mortal.

Também há pesquisas sérias feitas no Brasil: uma delas, da CPH Tecnologia em Saúde, feita com 3.600 executivos e outros profissionais durante 4 anos, apontou as "doenças" que mais atacam os profissionais no trabalho: ansiedade e enxaqueca (26%), depressão e insônia (17%) e gastrite (11%) - quase todas resultantes da somatização de conflitos. Ah, mais uma informação da Organização Mundial da Saúde: a cada 3 segundos ocorre no mundo uma tentativa de suicídio e a cada 40 segundos uma pessoa se suicida efetivamente. Grande parte das causas relacionam-se a conflitos profissionais. Chega ou querem mais? Então, lá vai: Christian Larose, presidente do Departamento do Trabalho do Conselho Econômico e Social da França relata que pesquisas internacionais centralizadas em Paris mostram um preocupante aumento do número de suicídios ligados à questões da vida profissional: demissões, reestruturações empresariais ou assédio moral no local de trabalho. Aí vem Mr. Sorrell e diz que "qualidade de vida é uma grande bobagem..."eque "o stress é essencial". Para quem?

Coincidentemente, uma semana antes de circular a citada edição da "Veja", publiquei em minha coluna os artigos "O que vale mais na sua empresa: o QUANTO ou o COMO?" e "Todos são responsáveis pelos resultados da empresa". Neles, sem a menor pretensão a guru, eu digo o óbvio - pelo menos para mim: o comprometimento com o lucro e a felicidade é de ambas as partes: empresa e colaborador - dentro de limites adequados, viáveis e sobretudo humanos.

Conforme descreve o consultor de empresas brasileiro Renato Bernhoeft em seu excelente artigo "Gurus arrependidos", há bem pouco tempo o até então guru Tom Peters teve uma crise de consciência, que infelizmente não teve por parte da mídia especializada o mesmo destaque que as "lições" transmitidas através do seu bestseller "Vencendo a Crise". Em um dos números da revista "Fast Company", Tom Peters admite que falseou os dados que divulgou em sua obra. Na mesma confissão, Tom Peters admite que "não possuía nenhuma teoria que quisesse provar" . Ou seja, "os oito "princípios" que estabeleceu como verdades para conseguir sucesso na nova realidade do mundo empresarial "foram apenas elaborados como conclusões pessoais, sem nenhuma consistência investigativa" e "os dados foram falseados para produzir o resultado que tínhamos em mente". No final, Tom Peters reconhece que "as suas idéias eram boas, mas restringiam-se simplesmente à realidade americana". E pensar que a tradução do "In Search of Excellence" virou bestseller no Brasil!

A quem possa interessar: acho que o único guru incontestável e de cujas mensagens deveríamos ser todos multiplicadores diários, chama-se Deus. Quanto aos outros, sejamos prudentes. Que há consultores, autores e palestrantes muito inteligentes e criativos, capazes de oferecer excelentes alternativas de ação e comportamento ao mundo corporativo, não há a menor sombra de dúvida. Mas certamente, se são bons mesmos, eles não se intitulam - e nem aceitam que ninguém o faça - de gurus. Com relação a estes, algo me diz que brevemente estarei escrevendo outro artigo não mais sobre a "falácia", mas sobre a "falência" dos gurus. Desculpem o trocadilho, mas ninguém é perfeito.

* Floriano Serra é colunista do Empregos.com.br, psicólogo, palestrante e Diretor de Recursos Humanos e Qualidade de Vida da APSEN Farmacêutica.

 

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