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Falsos valores

Moacir Moura*

As coisas começam cedo neste lado do mundo. Carlos tinha seis anos e estava com o pai quando este foi flagrado em excesso de velocidade. O pai entregou ao guarda uma nota de cinqüenta reais. “Tudo bem, filho, todo mundo faz isso.” Aos oito deixaram que ele assistisse a uma reunião de família, dirigida pelo tio Adão, sobre as maneiras mais seguras de gerenciar o pagamento de impostos. “Está tudo bem garoto, todo mundo faz isso.” Aos dez, a mãe o levou pela primeira vez a um show. O bilheteiro não conseguia arranjar lugares até que sua mãe lhe deu dez reais a mais. “Está tudo bem filho, todo mundo faz isso.” Com doze anos, ele perdeu os óculos a caminho da escola.Tia Francisca convenceu a companhia de seguros de que eles haviam sido roubados e recebeu uma indenização. '‘Está tudo bem, garoto, todo mundo faz isso.” Aos quinze, foi escolhido para jogar no time de futebol de salão da escola. O técnico o orientou como obstruir e agarrar o adversário pela camisa, mas sem ser visto pelo juiz. Ouviu novamente a frase célebre com a qual os adultos justificam suas trapaças. Aos dezesseis, Carlos trabalhou em uma loja como temporário. Sua tarefa era colocar as frutas estragadas no fundo dos expositores e espalhar as mais bonitas por cima, para ludibriar os consumidores. “Tudo bem garoto, disse o gerente. Todo mundo faz isso.” Carlos e um vizinho candidataram-se a uma bolsa de estudos. O vizinho era o primeiro da classe e órfão de pai. Carlos, um estudante apenas razoável, mas seu pai era amigo de político influente. Carlos ganhou a bolsa. “Está tudo bem, todo mundo faz isso.” Aos dezoito anos, um colega lhe ofereceu, por cem reais, as questões que cairiam na prova final. “Tudo bem amigo, todo mundo...!”
Flagrado colando, Carlos foi expulso da sala. Ameaçado de perder o ano, voltou para casa triste. “Como teve a coragem de fazer isso com sua mãe e comigo?”. “Onde aprendeu isso? Os tios também ficaram envergonhados. E proibiram sua filha de sair com a turma de Carlos. “Esse garoto é mau exemplo...!” No país onde ainda impera a cultura dos pequenos truques para se dar bem, uma coisa não é tolerada: O desvio de caráter de colar numa prova. Os adultos não suportam passar pela vergonha de ter um filho que compra facilidades para se dar bem na escola. E o resto, pode? Será que todo mundo faz isso? Será que os políticos que elegemos teriam coragem de agir assim para nos trapacear? E as empresas fariam o mesmo contra seus clientes? O que poderíamos fazer para acabar com essa cultura centenária? Que tal implantarmos a cultura do Jogue Limpo!

*Moacir Moura é palestrante e especialista em gestão da inteligência comercial. Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo

 

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