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O Crime da serra elétrica E-mail

O Crime da serra elétrica
*Eugen Pfister


Zé do Machado, caboclo avesso a conversa fiada e arredio à vida social, ouviu falar de uma tal de serra elétrica: “um trem maravilhoso que não carece de esforço prá dirrubá árvores”.

Não pensou duas vezes; comprou a engenhoca. 

E lá foi ele empunhando a serra elétrica pronto para contribuir com o aquecimento global. Ah! Quase me esqueço de contar que o nosso Zé era mais convencido e arrogante que uma prima dona de ópera em noite de gala.

Assim, as explicações do vendedor entraram por um ouvido e escapuliram pelo outro. Quem acredita que perguntar não ofende não conhece gente orgulhosa ou sabichona para quem um simples pedido de informação do tipo “onde fica tal rua?” sugere fraqueza, insegurança ou ignorância. Preferem perder-se a perguntar. 

Com pose de quem entende do riscado, o Zé Moto Serra, derrubou apenas três árvores, contra 12 que abatia a machadadas antes. Sem entender o que aconteceu, pensou:

- Deve ser falta de jeito! Amanhã nóis vê.

No dia seguinte, derrubou duas. E depois, com muito esforço, apenas uma única. O jeito foi voltar para a loja e trocar a mercadoria”.

O vendedor pede licença para testar o aparelho e, para espanto do Zé - “zuuuuuuuuuUUUUUUUUMMMM,Nosso amigo  madeireiro ficou assustado com o ronco.

- Mas que trem barulhento é esse, cumpadre???

Finda a história, tem início a vida real, em que muitas vezes julgamos saber mais do realmente sabemos.

Nesta categoria estão pseudo profissionais que confundem fala afetada – “vou disponibilizar o acervo de inteligência do nosso bureau de negócio e estratégia para que possam scanear o mercado e buscar nichos competitivos rentáveis” – com ciência e sapiência.  

A estes se seguem palpiteiros anônimos e famosos que deitam falação sobre tudo e todos: taxistas, ex big brothers,políticos profissionais, sem esquecer, é claro, das famosas e peladas das capas de revistas.. 

O sindicato dos opinólogos conta com milhares de afiliados. Escutá-los é um martírio, pois, após um caudaloso blá-blá-blá, descobrimos que não há suco nem bagaço em suas cabeças ocas.

Agora, aduladores e deslumbrados, não faltam.

- Que cabeça, que inteligência!.
- Mas você entendeu o que ele quis dizer?
- Uaí, se eu tivesse entendido o homem não seria inteligente, não é verdade?
 
Contudo, não ouse pedir esclarecimentos. Você será olhado com desdém ou espanto, como se fosse um marciano. Afinal de contas, é moderno e chique ouvir falsos profetas, falsos eruditos e falsos formadores de opinião e não entender nada.

Aliás, há quem pague milhões por uma overdose de idéias herméticas que não passam de pura enrolação. “Nossos gerentes devem procurar sinergia através do empowerment focado em processos que agreguem valor”.  Imagine a catástrofe se a sua empresa não der ouvidos a esse sábio conselho?  Imagine se no lugar da lengalenga acima, o guru simplesmente disser que a gerência deve planejar, executar, avaliar e agir como se fosse uma única grande equipe com objetivos comuns?

Que brega! Que pobreza de espírito! Como um conselho tão simples e banal pode ter alguma serventia para nossa estratégia de negócio? 

Por sinal, às vezes somos induzidos a pensar que já sabemos as lições de cor pelo simples fato de poder recitá-las,por ter feito um treinamento ou um MBA. Confundimos domínio da retórica com conhecimento, dissociando saber e fazer. 

Em tempos de fast food, criou-se o suposto fast learning que promete ensinar a gerenciar, negociar, vender, liderar equipes, comunicar, etc. em seminários ou cursos de dois ou três dias. 

O fast learning pode saciar a sede por novidades que acompanha a modernidade e, em particular, os consumidores e organizadores de simpósios, congressos e treinamentos. Mas daí a resolver problemas práticas é outra história. 

A questão que interessa não é participar de um evento de treinamento, e sim, comprovar a utilidade do conhecimento adquirido para obter ganhos de qualidade, produtividade, custos, satisfação do cliente, carreira, motivação, liderança e assim por diante. 

É isso aí! Cada vez mais me convenço da assertividade do ditado Zen que afirma que “saber e não fazer, ainda não é saber”. 

Portanto, caro leitor, se um sofista engravatado, de fala mansa e afetada desfiar seu rosário semântico na sua presença, peça que a ilustre criatura ligue as idéias e teorias na tomada para ver se ouvimos o tal zuuuuUUUUUMMMM!

Se fizer barulho, compre. Se não fizer, derrube a árvore com o bom e velho machado.

*Eugen Pfister

 

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